Você se sente autor das suas escolhas ou personagem de uma trama já escrita?
- villarom
- 5 de nov. de 2025
- 3 min de leitura
Determinismo, Cérebro e Inconsciente: O que Robert Sapolsky e Freud têm a dizer sobre o livre-arbítrio?
Você já se pegou pensando se realmente escolhe as suas decisões? Ou se, no fundo, elas já estavam "escritas" de alguma forma? Essa é uma das questões mais antigas da filosofia, e hoje, a ciência nos dá novas pistas para desvendar esse mistério. O neurocientista Robert Sapolsky e o pai da psicanálise, Sigmund Freud, são dois grandes nomes que, de maneiras diferentes, nos forçam a questionar a ideia de que somos totalmente livres.
O Cérebro nos Comanda? A Visão de Sapolsky
No seu livro "Determinados: A Ciência da Vida Sem Livre-Arbítrio", Robert Sapolsky, que também é primatólogo, defende uma ideia radical: o livre-arbítrio é uma ilusão. Para ele, cada ação que tomamos é o resultado inevitável de uma cadeia de causas que começa muito, muito antes do momento da decisão.
Imagine que você está prestes a fazer uma escolha. Sapolsky nos convida a olhar para trás:
- O que está acontecendo no seu cérebro neste exato momento? Apenas impulsos elétricos e químicos.
- Quais hormônios estão circulando no seu corpo? O estresse do dia, a falta de sono, tudo isso influencia.
- Como sua infância moldou as suas redes neurais?
- Qual é a sua herança genética?
- E a história evolutiva da sua espécie?
Para Sapolsky, tudo isso e muito mais se soma para formar o resultado final que chamamos de "escolha". Nesse modelo, a culpa e a punição moral perdem o sentido. Afinal, se ninguém "escolhe" de fato, como podemos culpar alguém por um comportamento? A solução, segundo ele, seria focar na compreensão das causas para prevenir comportamentos prejudiciais, em vez de julgá-los.
O Inconsciente nos Guia? A Visão de Freud
Décadas antes, Sigmund Freud já havia chegado a uma conclusão parecida sobre o nosso controle. Ele introduziu a ideia de determinismo psíquico: a crença de que nada na nossa vida mental acontece por acaso. Um simples lapso de linguagem, um sonho bizarro ou até um sintoma físico, para Freud, são sempre produtos de causas anteriores e, na maioria das vezes, inconscientes.
O que isso significa? Que por trás da nossa consciência, há uma enorme massa de desejos, conflitos e memórias de infância que operam sem que a gente perceba. Ou seja, aquela escolha que pareceu tão "livre" pode ter sido, na verdade, um eco de algo que aconteceu lá atrás, na sua primeira infância.
A grande diferença entre Sapolsky e Freud está no que "determina" nossas ações. Enquanto Sapolsky olha para a biologia (neurônios, genes, hormônios), Freud olha para a história subjetiva e o inconsciente. Para a psicanálise, as causas das nossas decisões não se limitam ao físico; elas são atravessadas por nossa linguagem, nossas fantasias e a forma como damos sentido à nossa própria vida.
O Ponto de Encontro e a Grande Diferença
Ambos concordam em algo fundamental: não existe uma decisão "do nada". Toda escolha é fruto de uma longa cadeia de causas, o que coloca em xeque a nossa autonomia absoluta.
Mas é na solução que eles se separam. Sapolsky nos leva a crer que, presos a uma corrente de causalidade física, somos reféns do nosso passado. Já Freud, mesmo reconhecendo que nunca seremos totalmente livres, nos dá uma esperança: o autoconhecimento. Para ele, a análise pode nos ajudar a entender essa corrente, a decifrar os mistérios do inconsciente. Ao fazer isso, não nos tornamos "livres", mas sim mais conscientes, com a possibilidade de encontrar saídas antes impensáveis.
No final das contas, tanto a neurociência quanto a psicanálise nos convidam a um mergulho profundo no nosso próprio ser. Elas nos mostram que a liberdade pode não ser a ausência de causas, mas a capacidade de entender de onde elas vêm.
E você, ao olhar para suas próprias escolhas, se sente mais próximo da corrente inevitável de Sapolsky ou da esperança transformadora de Freud?
Eduardo Villarom Helene





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