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Nota sobre o ocorrido na Venezuela

Nota sobre o ocorrido na Venezuela

Diante das notícias que circularam recentemente sobre um suposto sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro, envolvendo diretamente a figura de Donald Trump, sinto-me compelido a registrar uma preocupação que não é ideológica, mas ética e simbólica.


Independentemente da confirmação factual, das versões em disputa ou dos interesses geopolíticos em jogo, o simples enunciado de um episódio dessa natureza já produz efeitos psíquicos e políticos relevantes. No plano internacional, a ideia de um chefe de Estado capturado, removido ou instrumentalizado por outro país aciona fantasmas arcaicos de dominação, humilhação e ruptura do pacto civilizatório que sustenta, ainda que precariamente, as relações entre nações.


Do ponto de vista da psicanálise, chama atenção o quanto a política contemporânea tem operado sob a lógica do acting out. Gestos espetaculares, ameaças performáticas, narrativas de força e submissão substituem a palavra, a mediação e o trabalho simbólico do conflito. Quando a cena política abandona o campo do discurso e se aproxima da encenação violenta, algo do laço social se fragiliza profundamente.


Não se trata aqui de defender governos, líderes ou projetos de poder. Trata-se de sustentar um limite. Há uma diferença fundamental entre crítica política e aniquilação simbólica do outro. Quando essa fronteira se dissolve, o que emerge não é justiça, mas a repetição de uma lógica traumática, onde a força busca calar aquilo que não consegue elaborar.


Como psicanalista, preocupa-me o efeito pedagógico desses acontecimentos. Eles ensinam, ainda que de forma silenciosa, que o poder pode prescindir da lei, que a exceção pode virar regra, que o outro pode ser reduzido a objeto. Esse aprendizado não fica restrito aos palácios ou às manchetes. Ele infiltra-se no cotidiano, nas relações, na forma como lidamos com o diferente e com o conflito.


A Clínica da Palavra nasce exatamente da aposta oposta. A de que é pela palavra, pela escuta e pela elaboração simbólica que algo do humano pode ser preservado. Em tempos de radicalização e espetáculo, sustentar essa aposta talvez seja, hoje, um dos gestos mais políticos possíveis.


Eduardo Villarom Helene

Clínica da Palavra


Estudo após Retrato de Velázquez do Papa Inocêncio X -  Pintura de Francis Bacon
Estudo após Retrato de Velázquez do Papa Inocêncio X - Pintura de Francis Bacon

A obra de Francis Bacon é evocada aqui não como retrato de um líder específico, mas como expressão do colapso simbólico do poder quando a palavra cede lugar ao gesto. A figura sentada, atravessada pelo grito e pela deformação, ocupa um trono que já não sustenta, presa em uma cena que a expõe mais do que a governa. Trata-se de uma imagem do acting out político, onde o desamparo emerge justamente no lugar que deveria organizar o laço, a mediação e o limite.



 
 
 

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