Diante da Porta
- villarom
- há 2 dias
- 4 min de leitura
Kafka, psicanálise e a travessia de uma posição subjetiva
Antes de seguir, vale situar o leitor. “Diante da Lei” é uma curta parábola de Franz Kafka, inserida no romance O Processo. Nela, um homem do campo chega a uma porta que dá acesso à Lei e encontra um guarda que a vigia. A porta está aberta. Ainda assim, o homem é informado de que não pode entrar naquele momento. Ele espera. Espera dias, anos, uma vida inteira, sustentando a ideia de que a autorização virá no tempo certo. Apenas no fim descobre que aquela porta existia somente para ele. É um texto breve, quase silencioso, mas de uma densidade incomum. Não oferece explicações, não entrega uma moral evidente. Talvez por isso seja tão frequentemente indicado em contextos clínicos. Vale lê-lo devagar, sem pressa de compreender, deixando que a cena trabalhe por dentro.
Houve um momento recente em que essa leitura chegou até mim não como esclarecimento, mas como gesto clínico. Veio indicada por minha analista, com a discrição de quem sabe que certos textos não pedem explicação. Não houve justificativa, nem comentário prévio. Apenas a indicação. E, curiosamente, isso bastou.
“Diante da Lei” tem essa qualidade inquietante de se apresentar como uma cena viva. Não se lê apenas com a razão, lê-se com o tempo subjetivo, com aquilo que permanece em suspensão. Um homem diante de uma porta aberta, um guarda que não proíbe, apenas adia, e uma vida inteira organizada em torno da espera. Nada de extraordinário. E é justamente aí que algo se desloca. A cena é simples demais para ser ignorada, comum demais para não nos implicar.
Na clínica, aprendemos que o adiamento pode ser mais paralisante do que a interdição. O “ainda não” costuma operar de modo mais eficaz do que o “não”. Em termos freudianos, a Lei ali não é apenas externa. Como nos ensinou Sigmund Freud, a autoridade mais potente é aquela que se instala por dentro, transformando-se em culpa, renúncia e obediência silenciosa. O guarda não fecha a porta porque o sujeito já aprendeu a esperar, a negociar, a sacrificar. Vive como se o acesso ao que importa dependesse sempre de uma autorização futura, sempre adiada.
Mas há algo nesse texto que ultrapassa a lógica da culpa. Com Donald Winnicott, a cena pode ser escutada de outro modo. Não apenas como submissão à Lei, mas como a história de um gesto que ainda não encontrou condições para acontecer. O homem não atravessa porque talvez nunca tenha podido sustentar um movimento que fosse verdadeiramente seu, sem adaptação excessiva, sem a garantia de que o ambiente sobreviveria ao ato. A porta, então, deixa de ser apenas a Lei e passa a figurar como um espaço potencial que permanece à espera de ser habitado.
Essa leitura ganhou, para mim, uma ressonância particular. Não como revelação súbita, dessas que iluminam tudo de uma vez, mas como reconhecimento lento. Há portas que se apresentam desde cedo, insistentes, silenciosas, exigindo não apenas coragem, mas compromisso. Há escolhas que não se impõem como destino, mas retornam como pergunta, às vezes incômoda, ao longo do tempo. A psicanálise sempre esteve ali, como campo, como linguagem, como ética. Não chamando, propriamente, mas aguardando presença.
Percebi, aos poucos, que a porta diante da qual tantas vezes permaneci não conduzia a um lugar externo, mas a uma posição subjetiva. Tornar-me analista não se apresentou como conquista nem como chegada. Foi, antes, um atravessamento. Não um prêmio ao final da espera, mas um gesto que só poderia ser feito em primeira pessoa. Nenhum Outro poderia concedê-lo. Nenhum guarda poderia autorizá-lo. Ninguém poderia atravessar por mim.
Talvez seja isso que Kafka nos ensine, com sua precisão quase desconfortável: algumas portas não são universais, são singulares. Elas não se fecham por proibição explícita, mas pelo esgotamento do tempo investido na espera. O trágico não está em errar o caminho, mas em passar a vida inteira diante daquilo que, desde sempre, já nos convocava.
Na contemporaneidade, multiplicam-se discursos de acesso, formação, certificação, pertencimento. Ainda assim, cresce a sensação de paralisia, de vida em suspenso, de projetos adiados em nome de exigências que nunca se completam. O guarda já não usa peles, nem fala em voz alta. Ele habita os imperativos de desempenho, as expectativas internalizadas, a sensação persistente de que ainda não somos suficientes.
Do ponto de vista clínico, a parábola de Kafka pode ser lida como um lembrete rigoroso, ainda que silencioso: não existe uma porta genérica, nem um acesso que possa ser indicado de fora. Cada sujeito tem a sua. Reconhecê-la é parte do trabalho analítico.
Atravessá-la não se confunde com superar um obstáculo externo, mas com assumir uma posição subjetiva que não pode ser delegada. A porta não se fecha por proibição, mas pelo tempo investido na espera. Em análise, o que se constrói não é a coragem de entrar, mas a possibilidade de sustentar o gesto quando ele se torna necessário.
Há leituras que não explicam, mas alinham. Que não empurram, mas sustentam. Talvez essa tenha sido a função silenciosa dessa indicação: aproximar-me da minha própria porta e permitir que, no tempo possível, a espera cedesse lugar ao gesto e o gesto, enfim, se transformasse em caminho.
Eduardo Villarom Helene
Clínica da Palavra
Algumas portas não se fecham. Nós é que demoramos a entrar.

Nesta pintura, Hammershøi apresenta uma porta aberta sem promessa de destino. Há uma figura feminina, vista de costas ou lateralmente, quase confundida com o espaço, como se sua presença não organizasse a cena, mas a tornasse ainda mais silenciosa. Não há gesto em curso, não há indicação de movimento, apenas a possibilidade suspensa do atravessamento. Diferente das imagens clássicas da espera, aqui não existe um guarda nem uma interdição explícita. O espaço não impede, tampouco convida. Ele aguarda. Clinicamente, a cena sustenta a ideia de que certas travessias não dependem de autorização externa, mas de uma posição subjetiva que só pode ser assumida em primeira pessoa. A porta está aberta, o risco não é a proibição, é o silêncio do passo.
Referência
KAFKA, Franz Kafka. Diante da Lei. In: O Processo. Tradução de Modesto Carone.
São Paulo: Companhia das Letras, 2005.
Observação: nesta edição, a parábola aparece no capítulo “Na Catedral”.




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