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Viver como pobre tendo recursos

Avareza, controle e a economia psíquica da escassez


Este texto dá continuidade à série sobre economia psíquica e dinheiro, iniciada com O custo de aparecer e aprofundada em Apostar para existir. Se no primeiro texto tratamos do investimento narcísico na imagem e, no segundo, da aposta como tentativa de sustentar a existência por meio do risco, aqui nos voltamos para um movimento aparentemente oposto, mas estruturalmente aparentado.

Não se trata mais do excesso, mas da retenção.  Não da descarga, mas do controle.

Há sujeitos que vivem como se estivessem sempre à beira da ruína, mesmo quando os dados objetivos não confirmam esse perigo. O dinheiro está disponível, mas não circula. Cada gasto é vivido como ameaça. Cada perda, mesmo pequena, como catástrofe.

Não se trata de prudência financeira. Trata-se de uma economia psíquica organizada em torno da escassez.

Clinicamente, esses sujeitos frequentemente relatam um estado permanente de vigilância. Conferem extratos repetidamente, fazem simulações, calculam cenários de perda, antecipam falências que não se anunciam. O dinheiro deixa de ser meio e passa a ser objeto de controle libidinal.

Retê-lo é uma forma de se proteger do colapso.

Em termos freudianos, podemos aproximar esse funcionamento da dimensão anal da organização pulsional, tal como desenvolvida por Freud nos Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade e em textos sobre caráter. A retenção, o controle e a dificuldade de deixar circular não dizem respeito apenas às finanças, mas a um estilo de relação com o mundo. Dar, gastar, perder equivalem, nesse registro, a se expor a uma perda de controle intolerável.

O dinheiro funciona, então, como substituto de garantias internas que não se consolidaram.

Com Winnicott, esse quadro pode ser lido a partir da fragilidade da experiência de confiabilidade ambiental. Quando o ambiente foi vivido como instável, imprevisível ou invasivo, o sujeito pode organizar uma defesa baseada na autossuficiência rígida. Não depender de ninguém, não precisar, não gastar, não dever.

A avareza, nesse contexto, não é apenas relação com o dinheiro. É uma defesa contra a dependência.

Há uma figura da teledramaturgia brasileira que talvez os mais jovens já não conheçam, mas que retrata com precisão quase clínica essa posição subjetiva. Refiro-me a Nonô Correia, personagem interpretado por Ary Fontoura na novela Amor com Amor se Paga (1984). Sua avareza extrema, os cadeados na geladeira, o controle obsessivo dos gastos e, sobretudo, o tesouro escondido em um quarto secreto compõem uma cena que ultrapassa o traço caricatural. Ali, o dinheiro não é vivido como recurso, mas como garantia contra uma catástrofe fantasmática. Nonô não vive como quem tem, mas como quem teme perder. Sua miséria não é econômica. É uma miséria de circulação, onde reter substitui confiar e controlar substitui depender. Se a novela um dia voltar no Vale a Pena Ver de Novo, vale também reler clinicamente esse personagem.

Ao contrário do apostador, que se lança no risco para sentir-se vivo, o sujeito da escassez extrema tenta sobreviver evitando qualquer abalo. Mas ambos compartilham algo fundamental: uma relação precária com a confiança básica no tempo, no outro e na própria continuidade de existência.

No cenário contemporâneo, essa economia da escassez é frequentemente mascarada por discursos de produtividade, minimalismo, controle financeiro, liberdade por meio da contenção. A cultura legitima, em parte, esse funcionamento, oferecendo-lhe uma roupagem racional. Mas, clinicamente, o que se observa é um empobrecimento da circulação psíquica.

Nada entra. Nada sai.  O sujeito se protege, mas também se empobrece.

Há, muitas vezes, uma vida emocional igualmente retida. Pouco investimento em vínculos, medo de depender, dificuldade de pedir, recusa em receber. O dinheiro, aqui, não é causa, é linguagem. Ele fala de uma posição subjetiva diante da falta e do risco de confiar.

Se no texto anterior o colapso vinha pelo excesso, aqui o colapso é silencioso. Ele se dá por congelamento.

Esse texto se fecha apontando para uma última dobra da série. Se há quem se perca pelo risco e quem se proteja pela retenção, há também quem organize sua economia psíquica em torno do olhar do outro. Não mais pelo dinheiro em si, mas pelo valor simbólico de ser visto, seguido, reconhecido.

É dessa última figura, onde Instagram, status e visibilidade se tornam operadores centrais da economia psíquica, que trato no próximo texto.

No próximo ensaio, vou tratar de Existir para ser visto: status, Instagram e a economia psíquica da visibilidade, onde o valor subjetivo se ancora menos no ter ou no apostar, e mais no aparecer.


Eduardo Villarom Helene 

Psicanalista, Clínica da Palavra 

sobre o que se retém quando confiar parece arriscado



Nonô Correia (Ary Fontoura), em Amor com Amor se Paga (1984). A avareza como cena cultural da economia psíquica da escassez.
Nonô Correia (Ary Fontoura), em Amor com Amor se Paga (1984). A avareza como cena cultural da economia psíquica da escassez.

Freud

FREUD, S. Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade (1905).FREUD, S. Caráter e Erotismo Anal (1908).FREUD, S. Alguns Tipos de Caráter Encontrados no Trabalho Psicanalítico (1916).

Winnicott

WINNICOTT, D. W. O Ambiente e os Processos de Maturação (1965).WINNICOTT, D. W. A Dependência no Cuidado do Bebê e da Criança (em Da Pediatria à Psicanálise).WINNICOTT, D. W. O Brincar e a Realidade (1971), especialmente capítulos sobre confiabilidade ambiental.

Nonô Correia (Ary Fontoura), em Amor com Amor se Paga (1984). Telenovela Rede Globo.

MOLIÈRE. O Avarento (1668). (Como referência simbólica e cultural, não como fonte clínica direta.)


 
 
 

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