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Quando o sofrimento vira responsabilidade

(uma leitura clínica sobre a NR-1 e o trabalho)


Nos últimos meses, uma mudança discreta começou a atravessar o mundo do trabalho no Brasil. A atualização da NR-1, norma que orienta as diretrizes de saúde e segurança ocupacional, passou a incluir os chamados riscos psicossociais.


Em termos simples, isso significa reconhecer que certas formas de organização do trabalho também adoecem. Metas inalcançáveis, jornadas prolongadas, pressão constante, humilhações sutis, ambientes marcados por medo ou instabilidade deixam de ser vistas apenas como dificuldades pessoais. Passam a integrar o campo da responsabilidade institucional.


A norma determina que esses fatores sejam identificados, avaliados e acompanhados dentro do Programa de Gerenciamento de Riscos. Não se trata apenas de discurso sobre bem-estar. O ambiente entra na conta.


Há algo de simbólico nesse movimento. O sofrimento psíquico no trabalho deixa de ser apenas história individual e passa a ser reconhecido como parte da estrutura.


É a partir desse deslocamento que este texto começa.


Durante muito tempo, o sofrimento no trabalho foi interpretado como falha individual. Não suportou a pressão. Não soube se organizar. Não teve maturidade emocional.


O ambiente permanecia fora de questão.


Na clínica, porém, a narrativa é outra. Escuto, com frequência crescente, homens e mulheres que chegam não falando de ambição, mas de exaustão. Não falam de metas alcançadas, falam de metas que se deslocam. Falam de reuniões em que saem menores do que entraram. Falam de um cansaço que não se resolve com férias.


E quase sempre aparece a mesma frase: “Eu acho que o problema sou eu.”

Essa frase, por si só, já diz muito.


Freud, em sua reflexão sobre o mal-estar na cultura, mostrou como o sofrimento não é apenas intrapsíquico. Ele nasce do encontro entre o sujeito e as exigências da vida em comum. O trabalho, como uma das formas centrais desse laço social, participa intensamente desse encontro. Ele pode organizar, dar sentido, sustentar autoestima. Mas pode também tornar-se espaço de ameaça constante, de comparação permanente, de exigência sem borda.


Quando a pressão ultrapassa a capacidade de elaboração, o sujeito não desaparece. Ele se reorganiza. E muitas vezes o faz criando uma versão de si que funciona melhor do que sente. Cumpre, responde, performa. Por dentro, algo se empobrece.


Winnicott descreveu esse movimento como formação de um falso self, uma organização defensiva que protege o núcleo mais espontâneo quando o ambiente não é suficientemente sustentador. Não se trata de fingimento consciente. Trata-se de sobrevivência psíquica.


Na clínica, essa defesa aparece de modo silencioso. Pessoas que continuam produtivas enquanto a vitalidade diminui. Que seguem comparecendo enquanto o sentido se esvai. O corpo começa a falar onde a palavra ainda hesita.


É nesse contexto que a incorporação dos riscos psicossociais na NR-1 pode ser compreendida como um marco. Ao reconhecer que determinadas formas de organização do trabalho produzem sofrimento, a norma desloca a responsabilidade exclusiva do indivíduo. Introduz a ideia de que o ambiente também falha.

Isso é relevante. Reduz a solidão do trabalhador. Questiona a lógica de que basta ser mais forte para suportar qualquer coisa.


Mas é preciso cautela.


Quando o sofrimento entra na esfera jurídica, ele precisa ganhar forma objetiva. Diagnóstico, nexo causal, documentos. O que é vivido como angústia difusa precisa tornar-se demonstrável. Nem toda dor se deixa enquadrar com facilidade. Há sempre o risco de que a complexidade da experiência humana se reduza a categorias administrativas.


A lei pode estabelecer limites externos.

Mas limite formal não equivale a transformação cultural.


Se a resposta das organizações for apenas cumprir exigências técnicas, pouco mudará na experiência cotidiana de quem trabalha. Relatórios não substituem escuta. Protocolos não garantem ambiente confiável.


Por outro lado, há uma oportunidade real. A possibilidade de repensar metas incompatíveis com a vida, revisar práticas de gestão que confundem cobrança com intimidação, formar lideranças capazes de sustentar conflito sem desqualificar o outro. Criar espaços institucionais onde o mal-estar possa ser nomeado antes de se converter em sintoma.


Para os profissionais de saúde mental, abre-se um campo de atuação que dialoga com a clínica, mas não a reduz. A escuta pode atravessar organizações, ajudar a compreender dinâmicas coletivas, oferecer leitura do clima emocional que números não captam.


Para os trabalhadores, talvez o ganho mais significativo seja simbólico. Poder reconhecer que o limite não é sinônimo de fracasso. Que adoecer não é prova de incompetência moral.

Que há contextos que precisam ser transformados, não apenas indivíduos que precisam se adaptar.


Winnicott falava da importância de ambientes suficientemente bons, aqueles que não são perfeitos, mas que reconhecem falhas e permitem reparação. Talvez esse seja o ponto mais delicado da discussão. Não se trata de eliminar tensão do trabalho. Trata-se de impedir que a tensão se torne humilhação constante.


A NR-1 pode ser lida como obrigação burocrática.

Ou como convite a uma mudança de mentalidade.


Na clínica, o sofrimento ligado ao trabalho já é realidade concreta. Ele chega nas queixas de insônia, nas crises de ansiedade antes da segunda-feira, no medo difuso de não corresponder.


A questão é se as organizações conseguirão escutar esse sofrimento antes que ele precise transformar-se em processo.


Entre a lei e a cultura há um intervalo.

É nesse intervalo que algo verdadeiramente novo pode nascer.


Eduardo Villarom Helene Psicanalista Clínica da Palavra Entre o trabalho e a palavra, um lugar para existir

Referências

Brasil. Ministério do Trabalho e Emprego. NR-1 – Disposições Gerais e Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (Portaria SEPRT nº 6.730/2020, com atualizações posteriores). Freud, S. O mal-estar na civilização (1930). Winnicott, D. W. O ambiente e os processos de maturação (1965).


A imagem pertence à obra Take Care of Yourself (2007), da artista francesa Sophie Calle.
A imagem pertence à obra Take Care of Yourself (2007), da artista francesa Sophie Calle.

O trabalho nasce de um e-mail de término amoroso recebido pela artista, encerrado com a frase “Take care of yourself” (“Cuide-se”). Em vez de responder diretamente, Calle convidou 107 mulheres de diferentes profissões para analisar a carta: advogadas, psicanalistas, linguistas, atrizes, juízas. Cada uma leu o texto a partir de seu campo, transformando uma experiência íntima em interpretação coletiva.


Na parte superior da imagem, a carta cobre parcialmente o rosto. A palavra do outro ocupa o lugar da face. Na parte inferior, o texto aparece ampliado, marcado, comentado, dissecado. O que era dor privada torna-se objeto de leitura.


Essa obra dialoga diretamente com o texto sobre a NR-1. Assim como a carta deixa de ser silêncio individual para ganhar dimensão pública, o sofrimento no trabalho deixa de ser vivido apenas como falha pessoal e passa a ser reconhecido como questão estrutural. Entre o rosto coberto e a carta analisada, há um movimento: da culpa isolada à possibilidade de elaboração compartilhada.


É nesse intervalo que a clínica e a cultura se encontram.

 
 
 

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