O cansaço de precisar se posicionar o tempo todo
- villarom
- 16 de mar.
- 5 min de leitura
Há perguntas que não abrem diálogo, apenas tentam nos enquadrar antes mesmo de nos escutar.
Nos últimos tempos, tenho sentido um cansaço muito particular. Não apenas o cansaço diante do excesso de notícias, conflitos, tragédias e ruídos que atravessam o cotidiano, mas um outro, mais difícil de nomear: o cansaço de ser continuamente convocado a me posicionar sobre tudo.
Religião, política, guerra, conflitos internacionais, figuras públicas, crises morais, polarizações de toda ordem. Em algum momento do dia, quase sempre aparece alguém, ou alguma cena, ou alguma conversa, trazendo a pergunta, às vezes de modo direto, às vezes de forma enviesada: e você, o que pensa sobre isso?
Pensar, claro, nunca foi o problema. Pensar é necessário. O problema está no modo como essa exigência tem se apresentado. Porque muitas vezes não se trata de uma conversa real.
Não se trata de uma troca em que a palavra ainda pode respirar, hesitar, se formar aos poucos. O que aparece é outra coisa: uma espécie de cobrança por respostas rápidas, nítidas, inequívocas, como se a complexidade incomodasse, como se o tempo da elaboração fosse suspeito.
Em certos momentos, tenho a impressão de que já não nos pedem reflexão, pedem declaração.
E talvez o que mais desgaste não seja apenas a quantidade de temas sobre os quais esperam que a gente fale, mas a atmosfera em que isso acontece. Muitas vezes, a pergunta não vem como abertura, vem como armadilha. Uma pequena cilada. Traz a aparência de interesse, mas logo se percebe que não há verdadeira disposição para escutar. O que se quer, frequentemente, não é saber o que você pensa, mas descobrir rapidamente onde te colocar. Em que lado. Em que campo. Em que prateleira moral, ideológica ou simbólica sua fala pode ser armazenada.
Há perguntas que parecem convidar ao pensamento, mas na verdade apenas exigem enquadramento.
Isso se torna ainda mais visível quando se ocupa uma profissão à qual se atribui algum tipo de saber. Ser psicanalista, por exemplo, faz com que muitas pessoas suponham que você deva estar sempre pronto a oferecer uma leitura, uma interpretação, uma posição. Como se trabalhar com a escuta significasse viver em estado permanente de pronunciamento. Como se fosse natural esperar que alguém que pensa, ou escreve, ou atende, ou ensina, tenha sempre à mão uma formulação pronta sobre religião, política, guerra ou qualquer impasse do mundo.
Mas não é assim.
O fato de alguém exercer uma profissão associada ao saber não o transforma em uma máquina de opiniões instantâneas. Nem todo tema nos atravessa da mesma maneira, no mesmo momento. Nem toda pergunta encontra dentro de nós um pensamento já amadurecido. E, talvez o mais importante, nem sempre aquele assunto que nos cobram comentar é, de fato, o que está nos tocando naquele instante.
Essa é uma parte pouco dita da experiência contemporânea. Muitas vezes nos pedem presença sobre um assunto que, naquele momento, não encontrou em nós ainda uma forma verdadeira. Como se fosse preciso produzir imediatamente uma posição visível sobre algo que ainda está sendo sentido, ou que talvez sequer esteja nos atravessando com a urgência que o outro imagina. Isso produz um tipo particular de violência: a de sermos arrancados do nosso próprio tempo interno para satisfazer a ansiedade classificatória de alguém.
Porque há também uma ansiedade social em jogo. A ansiedade de saber rapidamente quem é o outro. De que lado ele está. O que ele apoia. O que ele condena. O que ele pensa sobre os grandes temas do mundo. Como se a vida psíquica pudesse ser resumida a uma senha. Como se uma pessoa pudesse ser conhecida pela agilidade com que responde a um teste de alinhamento.
Religião, política, guerra. Temas graves, densos, carregados de história, sofrimento, crença, medo, violência e pertencimento. Assuntos que exigiriam mais cuidado, mais silêncio interior, mais estudo, mais elaboração. No entanto, com frequência, são transformados em gatilhos de verificação. Não para que se pense melhor, mas para que se responda depressa.
Talvez estejamos ficando exaustos não apenas pela quantidade de informação que circula, mas pela exigência contínua de transformar tudo em posição.
E há uma diferença importante entre posição e pensamento. A posição, muitas vezes, funciona como resposta pronta. O pensamento, não. O pensamento verdadeiro costuma ser mais lento. Ele tolera ambivalência. Suporta não saber de imediato. Precisa de intervalos. Às vezes recua. Às vezes hesita. Às vezes se cala por um tempo não porque renunciou ao mundo, mas porque se recusa a violentá-lo com uma formulação apressada.
Nem todo silêncio é omissão.
Às vezes, o silêncio é apenas a defesa de um espaço interno ainda não colonizado pela pressa. Às vezes, é uma tentativa de não ceder à compulsão contemporânea de reagir a tudo. Às vezes, é a forma possível de preservar a espessura de uma pergunta antes que ela seja esmagada pela necessidade de uma resposta exibível.
Isso não significa defender indiferença, alienação ou recuo cínico. Há momentos em que é preciso falar, e falar com clareza. Há situações em que a omissão, de fato, se torna cumplicidade. Mas não é disso que estou falando. Estou falando de outra coisa: do desgaste subjetivo produzido quando toda pergunta deixa de ser pergunta e passa a funcionar como exame. Quando toda conversa se torna prova. Quando toda interpelação parece vir acompanhada de um tribunal silencioso.
Nessas horas, a palavra perde algo de sua vocação mais viva. Deixa de ser encontro, elaboração, travessia. Vira senha. Vira marcação. Vira reflexo.
E talvez uma das tarefas mais difíceis, hoje, seja justamente recuperar o direito ao intervalo. O direito de dizer: não quero responder assim. Não quero reduzir esse tema a um reflexo. Não quero ser convocado a me declarar apenas para caber mais facilmente no imaginário de alguém. Quero pensar. Quero sentir. Quero sustentar o desconforto de não ter uma frase pronta.
Parece pouco, mas não é.
Num tempo em que tantos querem saber rapidamente quem somos a partir de uma opinião sobre religião, política ou guerra, proteger esse intervalo talvez seja uma forma discreta, mas essencial, de resistência. Não contra o pensamento, mas a favor dele. Não contra o mundo, mas contra a pressa de transformá-lo em teste. Não contra a palavra, mas contra sua redução a instrumento de enquadramento.
Talvez estejamos precisando reaprender isso: nem toda demanda por opinião é um convite ao diálogo. Muitas são apenas tentativas de classificação. E viver respondendo a elas, uma após a outra, também adoece.
Clínica da Palavra Eduardo Villarom Helene
Psicanalista
Há perguntas que não querem escuta, querem apenas nos colocar no lugar onde já haviam decidido nos ver.

Nesta obra, a pergunta não se oferece como simples abertura ao diálogo. Ela traz consigo tensão, recorte, enquadramento. Por isso a imagem acompanha bem o texto: nem toda interpelação quer escuta, algumas apenas querem decidir rapidamente em que lugar nos colocar.




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