O Ritual da Passagem: entre a repetição freudiana e o gesto espontâneo em Winnicott
- villarom
- 31 de dez. de 2025
- 4 min de leitura
Quando o tempo muda no calendário, mas o psiquismo insiste em continuar
A virada do ano é mais do que um evento cronológico. É um ritual simbólico no qual projetamos a esperança de interromper repetições, aliviar culpas e reinventar a própria história. Este ensaio propõe um olhar psicanalítico sobre o Ano Novo como espaço de tensão entre a compulsão à repetição, descrita por Freud, e a possibilidade de criação e espontaneidade, pensada por Winnicott. Entre promessas, lutos e desejos, o que realmente pode nascer quando um ciclo se encerra?
Aproximamo-nos daquela fresta do calendário em que o tempo parece suspender o fôlego. Na cultura ocidental, o dia 31 de dezembro não é apenas uma convenção cronológica, é um ritual coletivo de balanço e expectativa, uma espécie de exame de consciência compartilhado. Operamos sob uma lógica quase peregrina, como se, ao atravessar o portal de um novo ano, deixássemos para trás o peso dos ciclos mal resolvidos.
Mas, como psicanalista, a pergunta se impõe: o que, de fato, se encerra quando o relógio marca meia-noite?
O ciclo e a compulsão à repetição
Freud nos ensinou que o psiquismo humano carrega uma tendência insistente, por vezes cruel, àquilo que chamou de compulsão à repetição. Reencenamos fracassos, vínculos e sofrimentos não porque desejamos sofrer, mas porque algo ainda não pôde ser simbolizado. Quando olhamos para o ano que passou e o nomeamos como “ruim”, muitas vezes estamos diante de um espelho que revela mais sobre nós do que sobre as circunstâncias.
As promessas de Ano Novo, sob essa ótica, podem ser compreendidas como tentativas do ego de negociar com um superego severo. Prometemos disciplina, mudança, renúncia ou desempenho como quem tenta reparar uma falta antiga. O risco é conhecido: sem elaboração psíquica, o “novo” ano tende a ser apenas a repetição do antigo, agora com outra aparência e as mesmas exigências internas.
A esperança como espaço potencial
É nesse ponto que a delicadeza clínica de Donald Winnicott nos oferece um respiro. Para ele, saúde não é a ausência de conflito, mas a possibilidade de sentir-se real, vivo, autor de gestos próprios. O Ano Novo, enquanto ritual cultural, pode funcionar como um objeto transicional coletivo.
Tal como o objeto transicional da infância, que faz a ponte entre o mundo interno e a realidade externa, a virada do ano inaugura um espaço potencial. Um tempo intermediário, nem totalmente submetido à realidade, nem entregue à fantasia pura. É uma forma de brincadeira séria, na qual o sujeito ensaia a ideia de que a vida ainda pode ser recriada.
Se o ano que passou foi vivido sob um ambiente não facilitador, marcado por perdas, esgotamento ou silenciamentos, o desejo de começar “de outra forma” não é ingenuidade. É sinal de que o gesto espontâneo ainda resiste. Há, ali, uma centelha de vitalidade que não se deixou aniquilar pelas exigências externas.
Uma breve história: o relógio de areia de Elias
Havia um sujeito, vamos chamá-lo de Elias, que todo início de ano escrevia listas monumentais de metas. Em janeiro, sentia-se invencível; em março, já naufragava em frustrações. Ele buscava no controle do tempo uma promessa de cura.
Certa vez, disse-me: “Sinto que o Ano Novo é o único momento em que o mundo me dá permissão para esquecer quem eu fui.” Nessa frase convivem a tragédia e a beleza da nossa cultura. Buscamos no calendário uma autorização externa para algo que nos falta internamente: o perdão pela própria finitude.
Nietzsche, com a ideia do eterno retorno, radicaliza essa questão. Se tivéssemos de viver este mesmo ano infinitas vezes, como o viveríamos? A promessa do Ano Novo parece ser nossa tentativa silenciosa de responder: “da próxima vez, farei diferente”.
Como pensar o próximo ciclo
Para que o Ano Novo não se reduza nem à onipotência, a crença de que a vontade tudo resolve, nem à melancolia, o apego ao que se perdeu, talvez seja possível sustentar um caminho de integração.
Reconhecer o luto é um primeiro passo. Antes das metas, é preciso nomear as perdas. Ciclos não se encerram com champanhe, mas com a aceitação do que não pôde ser.
Assumir o suficientemente bom é outro movimento essencial. Abandonar a fantasia da perfeição permite que o ano seja habitável. Um ano suficientemente bom comporta falhas, desvios e criatividade, não apenas desempenho.
Sustentar a continuidade do ser talvez seja o ponto mais difícil. No dia 1º de janeiro, somos os mesmos sujeitos, com a mesma história. A mudança psíquica não nasce de rupturas violentas com o passado, mas da possibilidade de carregá-lo de forma menos pesada, mais simbolizada.
No fundo, o encerramento de um ciclo é sempre um ato de simbolização. Ao brindarmos, não celebramos apenas a passagem
dos astros, mas a persistência do desejo. E enquanto houver desejo, mesmo que frágil, ainda existe a possibilidade do novo.
Eduardo Villarom Helene Entre calendários que mudam e paisagens que persistem Clínica da Palavra

A pintura mostra uma paisagem parcialmente encoberta por um quadro que reproduz exatamente aquilo que estaria “por trás” dele. Não há ruptura visível entre representação e realidade, apenas continuidade. Essa imagem traduz com precisão o tema central do texto: a ilusão de que um novo ciclo apaga o anterior.
Na virada do ano, acreditamos que o calendário inaugura um cenário diferente, quando, muitas vezes, apenas reposicionamos a mesma paisagem psíquica. Em termos freudianos, a repetição se mantém sob outra forma. Em Winnicott, o desafio não é negar a paisagem anterior, mas criar um espaço potencial onde algo possa, enfim, ser vivido de maneira mais autêntica. A obra de Magritte convoca o leitor a perguntar: o que realmente mudou e o que apenas se reorganizou como imagem?




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