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Quem são as feras? Uma leitura psicanalítica da morte de Gerson de Melo Machado e da violência que veio depois

  • Foto do escritor: villarom
    villarom
  • 2 de dez. de 2025
  • 4 min de leitura

Atualizado: 2 de dez. de 2025


O país assistiu, com dor e perplexidade, à morte de Gerson de Melo Machado, de 19 anos, no zoológico Arruda Câmara, em João Pessoa. Gerson escalou um muro de seis metros, ultrapassou uma cerca de segurança, subiu em uma árvore e entrou no recinto da leoa Leona. A estrutura estava dentro das normas e acima do exigido. Ainda assim, diante de um ato tão inesperado, nenhuma instituição seria capaz de impedir o que ocorreu. A leoa reagiu por instinto e Gerson morreu ali, em poucos minutos.


A tragédia não terminou no momento de sua morte. Logo surgiram ataques, julgamentos e zombarias nas redes sociais. Muitos ridicularizaram o gesto, a morte e até a história de Gerson. Como se uma vida marcada pelo desamparo não merecesse reflexão, mas fizesse parte de um espetáculo público.

Gerson tinha nome, rosto e história. Cresceu sem um ambiente afetivo estável. Conviveu com a ausência da mãe em razão de um transtorno grave, com familiares adoecidos, períodos de institucionalização e comportamentos de risco desde cedo. Esse conjunto de experiências compromete a construção emocional de qualquer sujeito. Winnicott nos lembra que o desenvolvimento saudável depende de um ambiente suficientemente bom, capaz de oferecer holding, continuidade e presença. Quando isso falha, a criança cresce sem a base que permite integrar experiências e lidar com a própria angústia. Sem esse apoio, o mundo interno pode se tornar confuso e a relação com o perigo pode perder nitidez.


A psicanálise não reduz o gesto de Gerson a uma explicação simples. Ela apenas sugere que ninguém se coloca diante de um predador sem carregar uma história de dor e abandono. A jaula, para ele, talvez tenha sido o limite que não encontrou em suas relações humanas. A leoa pode ter simbolizado a força que ele buscou a vida toda sem encontrar. Em alguns jovens profundamente desamparados, o corpo acaba falando quando a palavra nunca foi possível.


A imagem de um jovem diante de um leão convoca também memórias antigas da cultura ocidental. É inevitável lembrar da história de Daniel na cova dos leões. Esse paralelo precisa ser feito com cuidado, porque são histórias distintas. Daniel é jogado na cova por injustiça, apoiado por sua fé e protegido. Gerson entra por conta própria, movido por uma dor sem contorno, e encontra a morte. O que aproxima as duas cenas não é o desfecho, mas a solidão extrema diante de uma força ameaçadora.


Daniel tinha uma comunidade, uma crença, um pertencimento que funcionavam como apoio simbólico. Tinha um ambiente interno sustentado. Gerson não teve nada disso. Viveu desde cedo em um vazio relacional onde ninguém pôde sustentá-lo de modo contínuo. Onde Daniel encontra proteção, Gerson encontra o reflexo de sua história de abandono.


Há também um contraste importante entre as reações. Na narrativa antiga, a multidão se espanta diante da vida preservada. No caso contemporâneo, muitos se divertem com a vida perdida. Esse contraste revela muito sobre nosso tempo. Se Daniel é celebrado, Gerson é ridicularizado. A ferocidade, nesse caso, não estava apenas na jaula. Estava nas palavras que feriram sua dignidade depois da morte.


A pergunta ética que atravessa as duas histórias permanece: quem sustenta o sujeito diante da ameaça? No caso de Gerson, essa pergunta se transforma em outra igualmente importante: quem falhou em sustentá-lo antes que a ameaça acontecesse? O zoológico estava preparado. A sociedade, não. O que faltou a ele não foi um muro mais alto, mas uma vida onde houvesse cuidado estável, reconhecimento, espaço para existir com segurança.


Que essa morte não seja absorvida pelo cinismo ou pela crueldade. Que nos faça pensar sobre o valor do cuidado e sobre a responsabilidade coletiva na formação de uma vida psíquica saudável. Uma sociedade que ri da tragédia de um jovem repete, em público, o mesmo abandono que moldou sua vulnerabilidade desde o início.


A pergunta de Alexandre Beck permanece viva: quem são as feras? As que agem por instinto ou as que ferem pela palavra? As que vivem na jaula ou as que se escondem atrás de telas?


Que possamos resgatar o que nos torna humanos. Cuidar da vulnerabilidade do outro é o primeiro passo.


Clínica da Palavra – Eduardo Villarom Helene


Sobre a imagem que acompanha este texto
Sobre a imagem que acompanha este texto

A tirinha de Alexandre Beck, criador do personagem Armandinho, foi escolhida para ilustrar esta reflexão porque traduz de forma simples e profunda algo que palavras muitas vezes não alcançam. Ela lembra que por trás de um gesto extremo pode existir um sonho, uma história e uma vulnerabilidade que não receberam o cuidado necessário. Também evidencia, com delicadeza, como a crueldade dos comentários públicos pode revelar mais sobre nós do que sobre quem perdeu a vida. Ao perguntar quem são as feras, a imagem convida o leitor a olhar para a ética do cuidado, para o modo como tratamos a dor alheia e para a responsabilidade coletiva diante da fragilidade humana.

Crédito da ilustração: Alexandre Beck.


Referências bibliográficas


Winnicott, D. W. O ambiente e os processos de maturação. Porto Alegre: Artes Médicas, 1983.

Winnicott, D. W. Da pediatria à psicanálise. Rio de Janeiro: Imago, 2000.

Winnicott, D. W. O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975.


Contexto cultural e imagem simbólica

Bíblia Sagrada. Livro de Daniel, capítulo 6. Bíblia que herdei de minha Mãe Flora.


Reportagens que fundamentaram o caso de Gerson de Melo Machado

CNN Brasil. “Entenda o caso: homem morreu após entrar em jaula de leoa na PB.”



 
 
 

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