Quando a história muda de direção
- villarom
- 5 de dez. de 2025
- 3 min de leitura
Como transformar a herança emocional e abrir espaço para um novo começo
A ideia deste texto nasceu de um vídeo da Luiza Possi que me tocou profundamente. Nele, a artista refletia sobre a necessidade de reconhecer padrões familiares que percorrem gerações e assumir que alguns deles podem encontrar um ponto final em nós, abrindo espaço para uma nova forma de viver. Sua afirmação de que “somos vítimas de vítimas” ecoou de maneira intensa, especialmente para quem trabalha com o sofrimento humano e acompanha, na clínica, histórias que se repetem sem que o sujeito perceba.
No campo da psicanálise, sabemos que herdamos modos de reagir, sentir e amar que não escolhemos. São marcas emocionais transmitidas silenciosamente, que moldam nossas relações e influenciam a maneira como respondemos ao mundo. Muitas vezes, carregamos dores que começaram muito antes de nós, como se a história da família insistisse em continuar através de nossos gestos e escolhas.
Na clínica, percebemos que romper um padrão não é um ato heroico nem uma decisão que se cumpre apenas pela força da vontade. Freud descreveu a influência das identificações inconscientes que atravessam gerações e se condensam em sintomas ou repetições. Winnicott ampliou essa visão ao mostrar que a qualidade do ambiente recebido determina nossa capacidade de confiança, criatividade e vínculo. Isso significa que esses padrões familiares não apenas se repetem, mas se instalam como modos de sobreviver que, em algum momento, deixam de ser necessários e passam a nos aprisionar.
Muitas pessoas chegam à análise movidas pelo desejo de não transmitir aos filhos aquilo que ainda dói nelas. Querem interromper cadeias de dureza, instabilidade, silêncio ou abandono. Querem um destino menos marcado por falhas emocionais que se tornaram quase naturais na família. Essa decisão, no entanto, costuma vir acompanhada de culpa, receio de parecer ingrato e medo de trair a própria origem. Porque romper um ciclo implica olhar de frente para o que se recebeu e admitir que nem tudo que herdamos precisa continuar.
A frase “isso termina comigo” só se sustenta quando acompanhada de elaboração e cuidado. Não se trata de condenar a geração anterior nem de apagar o que foi vivido. Trata-se de compreender como aquelas experiências nos marcaram, como moldaram nossa sensibilidade e como ainda falam através de nós. O trabalho analítico permite essa travessia. Abrimos espaço para revisitar a própria história com atenção às feridas que pedem nome e às defesas que um dia foram necessárias.
Winnicott nos ajuda a entender que reencontrar o gesto espontâneo é uma forma de recuperar a vitalidade onde antes havia apenas reação defensiva. Freud, por sua vez, mostra que transformar o passado implica retirar o investimento das repetições inconscientes que insistem em se impor. Quando esses dois movimentos se encontram, o sujeito descobre que pode criar um ambiente interno mais confiável, menos tomado pela compulsão à repetição.
Romper um padrão geracional é um compromisso silencioso com a própria vida. Não exige um rompimento hostil com a família. Exige transformar a forma como a história familiar vive dentro de nós. Quando elaboramos o que nos atravessa, deixamos de transmitir aos filhos aquilo que ainda governa nossa maneira de amar e sofrer.
Dizer “aqui termina” é inaugurar outra narrativa. Uma narrativa que honra o passado sem ser conduzida por ele. Uma narrativa em que o futuro deixa de ser repetição. É na clínica, muitas vezes, que esse gesto encontra sustentação, permitindo que o sujeito crie condições internas para viver de forma mais livre, mais criativa e menos determinada pelos fantasmas do que herdou.
Clínica da Palavra – por Eduardo Villarom Helene





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