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O valor de si na vitrine

Economia psíquica, narcisismo e status digital


Este texto inaugura uma série de quatro ensaios sobre economia psíquica na contemporaneidade, um campo em que dinheiro, imagem, risco e sofrimento deixam de ser temas separados e passam a se atravessar silenciosamente. Ao longo desses textos, a proposta não é falar de finanças no sentido técnico, mas de como o dinheiro, hoje, ocupa funções psíquicas que antes pertenciam à palavra, ao laço e ao tempo.


Neste primeiro ensaio, o olhar se volta para a vitrine, para o valor de si construído na imagem, no reconhecimento e no status digital. Nos textos seguintes, o percurso avança para o risco e as apostas, para a descompensação financeira como sintoma e, por fim, para uma leitura clínica mais ampla, onde o dinheiro aparece como regulador direto da angústia. Cada texto se fecha em si, mas deixa uma fresta aberta para o próximo, como continuidade de uma mesma questão clínica.

Há um deslocamento em curso, silencioso, quase educado. O valor de si, que antes se construía no tempo da experiência, do laço e da palavra, passou a depender, cada vez mais, da cena, da imagem, da visibilidade. Não se trata apenas de vaidade. Há algo mais estrutural em jogo. Trata-se de economia psíquica.


Na contemporaneidade, existir já não é apenas estar vivo. É, de algum modo, ser visto.


O Instagram não organiza apenas imagens. Ele organiza uma economia de reconhecimento. Curtidas, seguidores, viagens, restaurantes, corpos, conquistas, tudo se converte em índice de valor. Não valor simbólico, mas valor exibível. O sujeito passa a se perguntar, muitas vezes sem perceber: quanto eu valho quando apareço?


É nesse ponto que o dinheiro muda de estatuto. Ele deixa de ser apenas meio de troca e passa a funcionar como operador narcísico. Gastar já não é simplesmente consumir, é sustentar uma cena. Endividar-se não é apenas erro de cálculo, é o preço pago para não desaparecer do campo do olhar.


Em termos freudianos, o que se observa é um deslocamento do investimento libidinal. Como descreveu Sigmund Freud em Introdução ao Narcisismo (1914), a libido pode se dirigir ao eu, aos objetos ou às imagens que o representam. Hoje, grande parte desse investimento se fixa na superfície, na forma como o eu é percebido, avaliado, validado.


A experiência perde densidade. A imagem ganha urgência.


O sujeito já não pergunta o que deseja, pergunta o que performa melhor. Não pergunta o que lhe faz bem, pergunta o que rende visibilidade. A vida começa a se organizar como vitrine. E toda vitrine exige manutenção constante. O problema é que a vitrine não sustenta ninguém. Ela apenas consome.


Clinicamente, isso aparece com nitidez. Pessoas que ganham bem, mas vivem permanentemente no limite. Pessoas que não conseguem reduzir o padrão de vida, mesmo quando o custo se torna insustentável. Pessoas que confundem queda financeira com aniquilação subjetiva. Não se trata de irresponsabilidade. Trata-se de identificação.


Quando a imagem vira suporte do eu, qualquer rachadura econômica ameaça algo muito mais profundo do que o saldo bancário.


O sofrimento, então, não nasce exatamente da falta de dinheiro, mas do fato de que o dinheiro passou a carregar uma função que não é dele. Ele sustenta a existência simbólica, substitui o laço, ocupa o lugar da palavra. A economia financeira se mistura à economia psíquica, e o preço começa a ser pago no corpo, na angústia, na repetição.


Quando o valor de si passa a depender da vitrine, a vida vai ficando cara. Não apenas no extrato bancário, mas no corpo, no ritmo interno, na possibilidade de descansar da própria imagem. Sustenta-se a cena, ajusta-se o enquadramento, mantém-se a aparência de continuidade. E, pouco a pouco, a experiência vai sendo substituída pela performance.


Não se trata simplesmente de gastar mais, mas de não poder desaparecer. A visibilidade deixa de ser escolha e se transforma em exigência silenciosa. O dinheiro, então, começa a operar em outro registro. Já não organiza apenas trocas materiais, passa a tamponar faltas que não são econômicas. Ocupa o lugar do laço, do tempo, da palavra. Funciona como sustentação provisória de algo que não encontrou amparo suficiente em outro lugar.


Mas toda sustentação artificial tem um limite. Há um ponto em que a imagem já não basta, em que a conta não fecha apenas porque os números não fecham, mas porque a angústia atravessa a cena. É nesse momento que muitos sujeitos deixam de apenas manter e passam a arriscar. Não por atração consciente pelo perigo, mas porque o risco, por um instante, restitui algo da sensação de existir.


O dinheiro, então, muda novamente de função. Já não sustenta a imagem. Passa a regular diretamente a angústia.


No próximo texto, vou tratar de Apostar para existir: bets, risco e colapso financeiro, acompanhando esse deslocamento em que o custo de aparecer cede lugar ao risco de perder tudo, como se a perda se tornasse, paradoxalmente, a última tentativa de não desaparecer de si mesmo.


Clínica da Palavra

Eduardo Villarom Helene

Psicanalista Onde o dinheiro fala, quase sempre há algo que ainda não encontrou palavras.


Gregory Crewdson, Sem título (Garota na Janela) do filme Crepúsculo , 1999
Gregory Crewdson Sem título (Garota na Janela) do filme Crepúsculo , 1999

As fotografias de Gregory Crewdson constroem cenas meticulosamente iluminadas, artificiais, quase publicitárias, em que tudo parece visível e, ao mesmo tempo, estranhamente vazio. Há luz, enquadramento, composição, mas falta encontro. A imagem sustenta uma cena, não uma experiência.

Essa estética dialoga diretamente com a lógica da vitrine contemporânea descrita no texto. O sujeito aparece exposto, reconhecível, aparentemente íntegro, mas isolado dentro da própria cena que sustenta. A casa iluminada, a janela aberta, o interior revelado, tudo sugere visibilidade sem intimidade.

Clinicamente, a imagem traduz o deslocamento da economia psíquica para a superfície: muito investimento na aparência, pouco amparo na experiência. Assim como na vitrine digital, há luz suficiente para ser visto, mas não para ser sustentado.


Referências bibliográficas

Freud, S. (1914). Introdução ao narcisismo. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, vol. XIV. Rio de Janeiro: Imago. Freud, S. (1915). Pulsões e seus destinos. In: Edição Standard Brasileira, vol. XIV. Freud, S. (1923). O ego e o id. In: Edição Standard Brasileira, vol. XIX.


 
 
 

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