top of page

Por que compreender as matrizes do pensamento psicológico importa para quem pratica a psicanálise

  • Foto do escritor: villarom
    villarom
  • 5 de dez. de 2025
  • 3 min de leitura

Entre corpo, sentido e mundo social: o que sustenta a prática psicanalítica


Ler Matrizes do Pensamento Psicológico, de Luís Cláudio Figueiredo, é como atravessar um espelho que devolve não apenas a história da psicologia, mas também nossos próprios modos de pensar e de clinicar. Ao longo da formação, muitos de nós nos aproximamos da psicanálise por afinidade, por vocação ou por uma experiência emocional que nos convocou a escutar o sofrimento do outro. No entanto, essa escolha teórica, tão íntima e apaixonada, acontece dentro de um campo muito mais amplo do que costumamos supor.


As três matrizes descritas por Figueiredo funcionam como lentes. Cada uma ilumina uma parte do humano e deixa outra na sombra. A matriz naturalista, com sua busca por leis e previsões, recorda que há dimensões do comportamento que se repetem e se organizam de maneiras coerentes. A matriz hermenêutica, onde vive a psicanálise, aposta no sentido, na história pessoal, na espessura da experiência subjetiva. Já a matriz crítica lembra que ninguém sofre sozinho; há forças sociais, políticas e econômicas que atravessam cada gesto do sujeito.


Perceber essas matrizes é reconhecer que o campo psicológico não é um território homogêneo. É plural, atravessado por debates, conflitos e modos diversos de se aproximar do sofrimento. Para quem exerce a psicanálise, essa consciência é mais do que uma sofisticação teórica; é uma exigência ética. Sem compreender o pano de fundo em que atuamos, corremos o risco de transformar nossa prática em dogma, repetindo conceitos sem perceber o mundo que pulsa ao redor.


Na clínica, o paciente não chega dividido em compartimentos. Não é apenas organismo, nem apenas narrativa, nem apenas produto das circunstâncias sociais. Ele é tudo isso ao mesmo tempo, em uma trama viva que escapa a qualquer sistema fechado. Compreender as matrizes não significa misturar tudo, mas saber transitar com responsabilidade. Significa reconhecer quando uma explicação naturalista ajuda a nomear o impacto do estresse no corpo. Significa perceber quando a leitura hermenêutica permite aprofundar o sentido de um sonho ou de um ato falho. E significa não esquecer que há histórias de vida marcadas por exclusão, pobreza e violência, onde o sofrimento não é apenas interno, mas fruto de feridas sociais.


A psicanálise, nesse cenário, se fortalece quando permanece aberta. Freud nunca trabalhou isolado; dialogou com a biologia, com a literatura, com a filosofia, com a cultura de seu tempo. Winnicott atravessou fronteiras ao pensar desenvolvimento, ambiente e criatividade. A tradição psicanalítica se expande justamente porque nunca coube em uma caixa.


Compreender as matrizes do pensamento psicológico é, portanto, um convite à humildade e ao rigor. Humildade para admitir que não damos conta de tudo. Rigor para sustentar nossa posição clínica com clareza e responsabilidade. O impacto disso na prática é concreto. Escutamos melhor quando sabemos que nossa escuta tem limites. Intervimos com mais precisão quando reconhecemos de onde falamos. E preservamos o espaço analítico como lugar vivo, capaz de acolher tanto a singularidade do sujeito quanto o mundo que o atravessa.


Talvez o maior ganho seja outro. Ao compreender as matrizes, deixamos de atuar por reflexo e passamos a clinicar por escolha. Isso muda tudo. Abre espaço para uma psicanálise contemporânea, crítica e sensível, capaz de acompanhar o sofrimento humano em toda a sua complexidade.






O Jardim das Delícias Terrenas”, painel central, Hieronymus Bosch (c. 1500)
O Jardim das Delícias Terrenas”, painel central, Hieronymus Bosch (c. 1500)

O painel central de O Jardim das Delícias Terrenas revela um universo pulsante, onde corpos, afetos, excessos e estranhezas convivem em uma mesma superfície. A imagem desafia qualquer tentativa de reduzir o humano a uma única chave de interpretação, lembrando que somos atravessados por forças internas, vínculos, desejos, linguagem, cultura e história. Assim como as matrizes do pensamento psicológico discutidas no texto, a obra expõe a complexidade do sujeito moderno e sua existência em múltiplos planos. Ela traduz visualmente a ideia de que não existe um só caminho para compreender o psiquismo, e que a clínica se faz justamente no diálogo entre camadas, sentidos e perturbações que coexistem.


Referencias Bibliográficas

Figueiredo, L. C. M. Matrizes do pensamento psicológico. Petrópolis, Vozes.


Freud, S. Escritos sobre a psicologia do inconsciente. Obras Completas. São Paulo, Companhia das Letras.


Winnicott, D. W. O ambiente e os processos de maturação. Porto Alegre, Artmed.


 
 
 

Comentários


bottom of page