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Pai e filho em Bondi Beach: notas sobre a transmissão da violência

  • Foto do escritor: villarom
    villarom
  • 15 de dez. de 2025
  • 4 min de leitura

Quando o ódio se torna herança: pai, filho e o colapso do laço


O que aconteceu em Bondi Beach não pode ser lido apenas como mais um episódio de violência extrema. Há algo neste acontecimento que exige um olhar mais atento: não foi um homem isolado, foi um pai e um filho. Um vínculo que, em sua função mais básica, deveria operar como proteção, limite e introdução à vida comum, foi transformado em passagem direta do ódio para o ato.


A praia era cenário de uma celebração. Famílias reunidas, crianças, um ritual coletivo marcado pela convivência e pela afirmação da vida. Do outro lado do mesmo espaço público, formava-se um pacto silencioso entre gerações, no qual o pai não oferece ao filho a lei, mas a arma. Não oferece palavra, mas autorização. O que se transmite ali não é uma crença nem uma identidade cultural, mas a falência de uma função essencial.


Na psicanálise, o pai não se reduz à figura biológica. Ele representa a instância que introduz a criança no campo da lei, da alteridade, da renúncia à onipotência. É aquele que ensina, muitas vezes sem palavras, que o outro existe e deve ser reconhecido. Quando essa função se inverte, quando o pai convoca o filho a eliminar o outro, algo fundamental se rompe. O ódio deixa de ser um afeto passível de elaboração e passa a funcionar como mandato.


Não se trata, portanto, de política ou de religião. Quando um pai legitima a morte de inocentes pelas mãos do próprio filho, entramos em um terreno anterior a qualquer ideologia. Estamos diante do colapso da transmissão simbólica. A violência deixa de ser um desvio individual e passa a ocupar o lugar de herança. Aquilo que deveria sustentar a continuidade da vida organiza, agora, a repetição da morte.


Há algo de profundamente inquietante nessa cena porque ela toca o ponto mais sensível da experiência humana: a possibilidade de o mal se infiltrar nos laços mais íntimos. O que deveria humanizar se converte em vetor de desumanização. O filho, que precisa ser protegido da própria pulsão destrutiva, é convocado a realizá-la. O pai, que deveria funcionar como contenção, torna-se cúmplice do pior.


É preciso dizer com clareza: nenhuma fé se sustenta quando se converte em instrumento de extermínio. Nenhuma cultura se preserva quando transforma crianças em executores do ódio herdado. Quando crenças passam a operar como armas, já não estamos no campo da espiritualidade ou da tradição, mas na dissolução do humano.


Talvez o aspecto mais doloroso dessa tragédia seja reconhecer que ela nos obriga a olhar para além do ato em si. Ela nos convoca a pensar sobre o que estamos transmitindo às próximas gerações, quais afetos estão sendo autorizados, legitimados ou silenciados dentro das famílias e das comunidades. O ódio, quando não encontra limite, tende a se organizar em linhagens.


Escrever sobre isso não é buscar explicações fáceis nem oferecer consolo rápido. É sustentar a pergunta incômoda que permanece depois do horror. Que tipo de mundo se constrói quando a violência ocupa o lugar da herança? E, sobretudo, como ainda podemos apostar na palavra, no vínculo e na responsabilidade como formas de interromper essa transmissão?


Talvez o trabalho clínico, hoje mais do que nunca, seja também esse: ajudar a transformar heranças mortíferas em histórias que possam, finalmente, encontrar outro destino.


Quando a herança se torna violenta, talvez reste à palavra a tarefa de abrir outro destino possível.

Eduardo Villarom Helene

Clínica da Palavra


“O Sacrifício de Isaac” (1603), Caravaggio
“O Sacrifício de Isaac” (1603), Caravaggio

A imagem apresenta o instante limite: o pai com a lâmina erguida, o filho imobilizado, o anjo que tenta conter o gesto. Tudo está suspenso entre a violência e a possibilidade de interrupção.

Para o ensaio, a força da obra está justamente aí. Caravaggio pinta o momento em que a transmissão pode ser barrada, em que a mão ainda pode parar. Em Bondi Beach, esse instante simbólico falhou. Não houve anjo, não houve lei, não houve palavra que interrompesse o ato.

A pintura não ilustra apenas a violência, mas a pergunta ética que atravessa o texto: quando o pai deixa de proteger e passa a sacrificar, o que resta do laço humano?


Sugestões de leitura complementar

Algumas leituras podem ampliar e aprofundar as questões abertas por este ensaio, especialmente no que diz respeito à transmissão, à violência e à responsabilidade no laço humano.

Sigmund Freud, em Totem e Tabu, oferece uma reflexão decisiva sobre a origem da lei, da violência e da vida em comum. Já em O mal-estar na civilização, o autor examina o conflito permanente entre pulsão destrutiva e cultura, tema central para compreender o cenário contemporâneo.

Donald Winnicott, em O ambiente e os processos de maturação, ajuda a pensar a importância do cuidado e da função dos adultos na proteção da vida psíquica infantil. Em Da pediatria à psicanálise, seus textos iluminam o papel do ambiente como sustentação ou falha na constituição do sujeito.

Melanie Klein, especialmente em Inveja e gratidão, contribui para a compreensão das raízes do ódio, da destrutividade e das possibilidades de reparação psíquica.


Essas obras não oferecem respostas prontas, mas ajudam a sustentar perguntas que continuam a nos atravessar.


 
 
 

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