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O Café Que Fica em Suspenso

  • Foto do escritor: villarom
    villarom
  • 11 de dez. de 2025
  • 4 min de leitura

Sobre gestos anônimos, comida quente e a delicadeza invisível que ainda sustenta o mundo


Em 2011, abri um restaurante movido por um sonho simples e ambicioso ao mesmo tempo: criar um lugar onde a comida fosse mais do que alimento, fosse encontro. Um espaço onde receitas, histórias e tradições de família se sentassem à mesa junto com a música e as artes. Foram anos bons, intensos, cheios de vida. Até que a pandemia, como um silêncio abrupto, tornou inviável o que antes era movimento.


Nesse percurso, resgatamos práticas antigas, gestos herdados de longe. Da Itália, veio a ideia do café suspenso. Um gesto mínimo, quase invisível: pagar por um café que seria tomado por alguém que ainda nem sabíamos quem era. Com o tempo, o café virou refeição suspensa. E todos os dias, sem anúncios, sem placas chamativas, entregávamos um pouco de comida quente, mas também algo mais raro: dignidade.


Essa história nasceu desse tempo. Do que vi, do que vivi, do que nunca se esquece quando se aprende que a generosidade tem um sabor muito particular.


A Magia do Café Suspenso em Nápoles


Era uma manhã fria e úmida em Nápoles. Dentro do antigo Bar Vittoria, o aroma forte de café torrado e a doçura dos sfogliatelle lutavam contra o cheiro salgado da maresia que entrava pela porta. O chão guardava marcas de décadas de passos apressados, encontros breves e despedidas silenciosas.


O senhor Vincenzo, homem robusto, de bigode farto e passos firmes, estava no balcão terminando a leitura do jornal. Dobrou a página com cuidado, pediu um expresso, tomou-o em dois goles, como quem cumpre um rito cotidiano. Ao pagar, sorriu para o jovem barista.


— Due caffè, per favore.


Deslizou algumas moedas a mais sobre o mármore gasto. Lorenzo, sem fazer alarde, anotou no quadro negro atrás do balcão, onde já se lia em letras tortas: Sospesi: 3. Com aquele gesto discreto, o número subiu para quatro.


Vincenzo não precisava de dois cafés. Saiu ajeitando o cachecol, levando consigo apenas o calor do próprio corpo, mas deixando, sem saber para quem, o calor de um gesto.


Horas depois, quando a agitação da manhã já havia se dissipado, a porta do Vittoria se abriu lentamente. A signora Elena entrou com passos cautelosos. Os cabelos brancos escapavam do lenço, o casaco gasto parecia maior do que seu corpo. Ela carregava consigo o frio do dia e a economia precisa de quem escolhe com cuidado cada gasto.


Aproximou-se do balcão e falou quase em segredo:


— Buongiorno, Lorenzo… por acaso há algum café suspenso hoje?


O barista sorriu com naturalidade, como se dissesse algo óbvio:


— Certamente, signora Elena. Temos quatro agora mesmo. O que a senhora gostaria?


O brilho que surgiu nos olhos dela não era apenas de alívio. Era de pertencimento. Pediu um expresso bem forte. Quando segurou a xícara fumegante, não sentiu apenas o calor da bebida. Sentiu algo mais difícil de nomear, uma gentileza sem rosto, uma presença invisível que, por instantes, a incluía novamente no ritmo da cidade.


Enquanto bebia, talvez nunca tenha pensado em Vincenzo. E ele, do outro lado do bairro, também jamais pensou nela. Ainda assim, naquele breve intervalo, estavam ligados por algo maior do que o acaso: um gesto simples que atravessava o invisível.

Porque o café suspenso não é apenas uma bebida à espera. É um modo silencioso de dizer: você não está só.


Nota autoral


Este texto nasce de uma experiência real, vivida entre panelas, cafés, histórias e encontros. O que aqui se transforma em crônica foi, por muito tempo, gesto cotidiano. Escrevo para que ele continue acontecendo, mesmo que em outras mesas, outros balcões, outras cidades.

Eduardo Villarom Helene Clínica da Palavra


Café Terrace at Night” (Terraço do Café à Noite, 1888), Vincent van Gogh                                                                 No terraço aceso de Van Gogh, a noite não é apenas escuridão, é também abrigo. O amarelo quente do café rasga o azul profundo do céu como um gesto que chama em silêncio. Há ali uma promessa de continência, um lugar onde o corpo pode pousar por instantes, onde o frio do mundo encontra uma borda. Como o café suspenso, essa luz não pergunta quem chega, apenas oferece. É o cuidado que não faz ruído, o amparo que não exige rosto, a delicadeza que sustenta quando tudo ao redor parece vasto demais. No terraço aceso de Van Gogh, a noite não é apenas escuridão, é também abrigo. O amarelo quente do café rasga o azul profundo do céu como um gesto que chama em silêncio. Há ali uma promessa de continência, um lugar onde o corpo pode pousar por instantes, onde o frio do mundo encontra uma borda. Como o café suspenso, essa luz não pergunta quem chega, apenas oferece. É o cuidado que não faz ruído, o amparo que não exige rosto, a delicadeza que sustenta quando tudo ao redor parece vasto demais.
Café Terrace at Night” (Terraço do Café à Noite, 1888), Vincent van Gogh No terraço aceso de Van Gogh, a noite não é apenas escuridão, é também abrigo. O amarelo quente do café rasga o azul profundo do céu como um gesto que chama em silêncio. Há ali uma promessa de continência, um lugar onde o corpo pode pousar por instantes, onde o frio do mundo encontra uma borda. Como o café suspenso, essa luz não pergunta quem chega, apenas oferece. É o cuidado que não faz ruído, o amparo que não exige rosto, a delicadeza que sustenta quando tudo ao redor parece vasto demais. No terraço aceso de Van Gogh, a noite não é apenas escuridão, é também abrigo. O amarelo quente do café rasga o azul profundo do céu como um gesto que chama em silêncio. Há ali uma promessa de continência, um lugar onde o corpo pode pousar por instantes, onde o frio do mundo encontra uma borda. Como o café suspenso, essa luz não pergunta quem chega, apenas oferece. É o cuidado que não faz ruído, o amparo que não exige rosto, a delicadeza que sustenta quando tudo ao redor parece vasto demais.


Se este texto tocou você em algum ponto da memória ou do afeto, convido a permanecer por aqui. No Blog da Palavra, escrevo sobre encontros, perdas, delicadezas e aquilo que insiste em nos manter humanos, mesmo nos tempos mais áridos.

 
 
 

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