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Narrativa de um Momento Zero

  • Foto do escritor: villarom
    villarom
  • 7 de dez. de 2025
  • 9 min de leitura

Atualizado: 8 de dez. de 2025

Um instante em que a vida deixa de apenas se repetir


Este é um conto de Eduardo Villarom Helene, em que literatura e psicanálise se encontram no instante em que algo do inconsciente encontra passagem para a vida.


Ele acordava todos os dias no mesmo horário, como quem obedece a um relógio que não fez questão de escolher. O despertador tocava às 6h15, mas ele já estava desperto às 6h10, num estado estranho entre o sono e a vigília, em que o corpo ainda pedia repouso e a mente já recitava a agenda de obrigações do dia.


O nome dele era Henrique, embora às vezes, ao se olhar no espelho, sentisse que respondia a outro nome invisível, um que nunca foi pronunciado. Tinha quarenta e oito anos, um emprego estável, uma rotina organizada, uma vida aparentemente ajustada. Nenhuma catástrofe evidente, nenhuma tragédia recente, apenas um cansaço espesso, antigo, que parecia vir de muito antes dele.


No espelho do banheiro, a luz fria fazia sombra nas olheiras. Henrique observava o próprio rosto como quem olha um estranho que aprendeu a imitar. Sabia exatamente o que deveria fazer: escovar os dentes, tomar banho, vestir a camisa azul de sempre, café sem açúcar, trânsito, reunião, planilhas, respostas cordiais, pequenas piadas em tom neutro. Era como interpretar um papel escrito por outra pessoa, um roteiro que jamais ousou questionar.


Havia algo de silencioso e pesado na casa. Não era só o apartamento de dois quartos, com móveis escolhidos para parecerem discretos. Era um silêncio que vinha de longe, como se estivesse impregnado nas paredes, herdado, antigo. Uma espécie de proibição muda: não sentir demais, não perguntar demais, não dar trabalho demais.


Na infância, ele aprendera, sem que ninguém precisasse dizer com todas as letras, que a melhor forma de ser amado era não exigir nada. A mãe ansiosa, ocupada demais em segurar as próprias rachaduras, o pai ausente mesmo quando presente, sentado na poltrona com o jornal aberto feito escudo. Criança, Henrique entendeu depressa que havia pouco espaço para seu mundo interno. Então aprendeu a se adaptar.


Ao longo da vida, foi ficando especialista em cumprir expectativas. Na escola, notas boas, sem fazer barulho. No trabalho, confiável, discreto, sempre pronto para o que o chefe pedisse. Nos relacionamentos, gentil, correto, incapaz de dizer não. Por dentro, porém, uma espécie de falta sem nome o acompanhava. Não era exatamente tristeza, tampouco desespero, era mais um vazio polido, como um chão encerado onde nada se fixa.


Às vezes, em momentos de insônia, lembrava de um sonho recorrente da adolescência. Estava em um corredor comprido, repleto de portas fechadas. Sabia que atrás de uma delas havia algo importante, talvez perigoso, mas nunca conseguia decidir qual porta abrir. Caminhava para frente e para trás, a mão quase tocando as maçanetas, e acordava sempre antes de escolher. Com o passar dos anos, o sonho foi se tornando mais raro, como se tivesse se recolhido às camadas mais profundas da mente. Mas a sensação de corredor sem saída permanecia.


Naquele dia específico, uma terça-feira qualquer, Henrique saiu de casa ligeiramente atrasado. O elevador não funcionava, então desceu as escadas lembrando da reclamação que provavelmente faria ao síndico, frase pronta, reclamação moderada, como o costume pedia. A rua estava um pouco mais úmida que de costume, cheiro de chuva antiga misturado ao escape dos carros.


No caminho para o metrô, passou pela padaria de sempre. O atendente o cumprimentou pelo nome, ele respondeu com um sorriso educado. Pediu o mesmo café, o mesmo pão na chapa, sentou na mesma mesa perto da vitrine de bolos. Tudo parecia seguir o roteiro. Só que havia um detalhe quase imperceptível: a lâmpada do teto, bem acima da sua mesa, piscava levemente, num intervalo irregular, como se quisesse chamar atenção.


Henrique percebeu a lâmpada, mas não deu importância no início. Tomou um gole de café, abriu o celular, conferiu e-mails, deslizou por notícias que não o comoviam. Guerra em algum lugar distante, escândalo político previsível, índice econômico, celebridade morta. Tudo o atingia como ruído de fundo.


Até que, num instante qualquer, a lâmpada apagou por completo. A luz da vitrine continuava acesa, o salão não ficou escuro de verdade, mas houve uma pequena alteração na atmosfera. Um meio segundo de sombra. Um intervalo. Como uma pausa no fôlego.


Nesse exato fragmento de tempo, algo se deslocou dentro de Henrique. Ele levantou os olhos instintivamente, encarando o ponto do teto onde antes havia luz. Pareceu-lhe familiar, aquela interrupção súbita, aquela oscilação entre claridade e penumbra. Sem entender o porquê, a imagem do velho sonho do corredor voltou, com uma nitidez que há anos não se fazia presente.


Viu-se novamente naquele corredor comprido, as portas alinhadas, o chão frio. Só que desta vez, ao invés de caminhar sem rumo, ele se fixou numa porta específica, à direita, um pouco mais estreita que as outras. A lâmpada que piscava na padaria se misturou, em sua mente, com uma lâmpada amarelada sobre o corredor do sonho. Tudo parecia ocorrer ao mesmo tempo: o café na mesa, a lâmpada queimada, o barulho da máquina de espresso, o corredor, as portas, o silêncio.


O garçom perguntou se estava tudo bem. Henrique apenas assentiu com a cabeça. Não confiava na própria voz naquele segundo. Um calor diferente subia do estômago para o peito, não era azia, nem vergonha, nem raiva, era um incômodo quase físico, como se algo que estivesse guardado demais estivesse se mexendo.


Lembrou da mãe. Não da mãe cansada que ele empurrava em cadeira de rodas no fim da vida, mas de uma cena remota, tão antiga que ele tinha quase certeza de que inventara. Ele com três ou quatro anos, sentado no chão da cozinha, brincando com tampinhas de garrafa, criando pequenos círculos. A mãe falava ao telefone, a voz tensa, repetindo que não aguentava mais, que ninguém a ajudava, que tinha vontade de sumir. Em determinado momento, ela olhou na direção dele e virou o rosto, como se a presença do menino fosse peso demais naquele instante de queixa. Henrique, criança, entendeu sem entender: ser visto era um risco.


A cena veio inteira, num clarão. O cheiro do detergente, o piso frio, a luz da janela, a voz da mãe. E, junto dela, outras cenas que nunca tinham se encaixado direito. O pai dizendo que homem de verdade não chora. A tia repetindo que ele era um menino tão bonzinho, que nunca dava trabalho, que a sorte da mãe era ter um filho assim. O elogio como sentença. A boniteza da adaptação como forma elegante de abandono.


O café já esfriara, mas ele continuava com a xícara entre as mãos, como se fosse um objeto de ancoragem. O mundo à volta seguia: alguém chamava o garçom, uma criança chorava no balcão, o barulho da rua atravessava a porta de vidro. Dentro dele, porém, o tempo parecia ter parado.


Era estranho, mas naquele momento Henrique teve a sensação de estar em duas dimensões ao mesmo tempo. De um lado, o homem adulto, com camisa azul, agenda cheia, contas pagas, prazos a cumprir. De outro, um menino pequeno, sentado no chão da cozinha, segurando tampinhas de garrafa, tentando não existir demais para não incomodar.


Um pensamento veio com força, sem que ele o chamasse: faz décadas que eu vivo para não atrapalhar ninguém. Foi tão simples e tão brutal que, por um segundo, ele parou de respirar.

Não se tratava de uma descoberta intelectual, dessas que se organizam em frases corretas.


Era uma espécie de golpe, um soco de verdade crua. Henrique enxergou, como se estivesse do lado de fora de si, a quantidade de vezes em que dissera sim quando queria dizer não, a quantidade de desejos que engolira com educação, a quantidade de raivas que transformara em sorrisos, a quantidade de tristezas que camuflara com produtividade.


Ali, na mesa da padaria, compreendeu com o corpo o que sempre lera em teorias que nunca tinham tocado tão fundo. Percebeu que sua vida inteira tinha sido construída como um falso eu, organizado para proteger uma parte mais viva e mais frágil que ele nunca se permitiu mostrar. O verdadeiro, aquele que poderia dizer quero, não quero, isso me dói, isso me importa, tinha ficado trancado atrás de alguma porta do corredor do sonho.


O que se passava naquele instante era o que, em um consultório, talvez um analista chamasse de retorno de algo recalcado, um pedaço de história que volta do subterrâneo para exigir lugar. Mas ali não havia divã, não havia relógio na parede, não havia pergunta interpretativa. Havia apenas uma lâmpada queimada, um café frio e um homem que, de repente, se deu conta de que tinha passado boa parte da vida vivendo para preservar o conforto afetivo dos outros.


Não foi bonito. Não foi elevado. Não foi uma iluminação tranquila. Henrique sentiu vontade de chorar no meio da padaria, o que seria um desastre para sua imagem de sujeito contido. Os olhos marejaram, ele pigarreou, passou a mão no rosto, como se pudesse desfazer o que estava começando a nascer.


Pensou em levantar, pagar a conta, seguir o dia, enterrar aquilo no território do exagero, dizer a si mesmo que estava apenas cansado, que talvez precisasse de férias. A defesa tentou agir depressa, como sempre. Só que, dessa vez, havia uma diferença delicada, quase imperceptível: uma parte dele não queria mais voltar para o automático.


Foi um segundo minúsculo, mas decisivo. O momento em que, pela primeira vez, o menino sentado no chão da cozinha e o homem de camisa azul pareciam estar no mesmo lugar do corpo. Como se finalmente dividissem a mesma pele.


Um pensamento atravessou a mente, simples e assustador: e se eu não quiser mais viver assim.


Não como frase genérica, mas como pergunta real. Não queria mais apenas sobreviver como o rapaz bonzinho, o colega útil, o filho que não pesa. A ideia de começar a existir de um modo mais verdadeiro vinha acompanhada de medo. Medo de perder o amor que conhecia, medo de ser rejeitado, medo de descobrir que talvez nunca tivesse sido realmente visto.


No entanto, junto do medo, havia um fio de vitalidade. Algo como uma pequena chama que, se apagada de novo, talvez não voltasse tão cedo.

Henrique pegou o celular, abriu a agenda. O dedo foi direto à lista de compromissos da semana. Reuniões, demandas, combinações. Embaixo, um nome que há meses adiava: o contato de uma analista indicada por um amigo, anotado num impulso de curiosidade e guardado na gaveta do depois eu vejo. Ele olhou para aquele nome com uma sensação estranha de reconhecimento. Uma espécie de convite tardio à existência.


Não sabia explicar por que, mas sentiu que aquele momento pedia um gesto concreto, ainda que pequeno. Algo que marcasse o fato de que aquela epifania não seria apenas uma ondulação bonita na superfície da consciência, feita para ser esquecida.

Sem pensar muito, tocou no número. Deixou chamar uma, duas, três vezes. Quase desligou antes de atender, o velho reflexo de recuar, de não incomodar. No quarto toque, entrou a caixa postal. A voz gravada pedia para deixar uma mensagem. Uma parte dele se aliviou: pronto, tentou, não deu certo, vida que segue.


Só que havia outra parte, essa recém acordada, que não aceitou o recuo. Antes que a ligação caísse, ele desligou e ligou outra vez. Agora o telefone tocou menos, e uma voz calma atendeu.


— Alô.


Henrique demorou um segundo para responder. Poderia ter inventado qualquer desculpa, dito que era engano. Em vez disso, falou seu nome em voz alta. Foi estranho ouvir-se dizer sou Henrique. Parecia a primeira vez que se apresentava de verdade.


Ele pediu horário. A voz do outro lado foi clara. Havia um horário disponível na semana seguinte. Enquanto anotava o dia e a hora, sentiu uma mistura de vertigem e alívio. Não sabia exatamente o que iria dizer quando estivesse sentado diante daquela pessoa. Não tinha um discurso preparado, tampouco uma narrativa organizada sobre si. Mas havia um fato novo, impossível de ignorar: pela primeira vez, admitira, ainda que timidamente, o desejo de ser escutado.


Desligou o telefone. A lâmpada continuava apagada, o salão da padaria seguia levemente mais escuro naquele ponto, mas seus olhos pareciam ver com outra nitidez. O mundo ainda era o mesmo: carros, barulho, prazos, boletos. Ele ainda era o mesmo homem, com a mesma história, as mesmas feridas, os mesmos medos.


E, ao mesmo tempo, algo não era mais igual.


O Momento Zero não foi um milagre redentor, nem uma cura instantânea. Não trouxe respostas prontas, nem apagou o cansaço de décadas. Mas abriu, dentro dele, uma fenda pela qual a própria vida começou a passar de outro modo. Uma espécie de breve encontro entre o que sempre foi recalcado e o que, enfim, ousava existir.


Quando saiu da padaria, o sol começava a rasgar as nuvens. Henrique caminhou em direção ao metrô com passos estranhamente conscientes. Sentia o peso do corpo, escutava o próprio respirar, percebia o atrito dos pés contra o chão. Cada gesto parecia inaugurar uma presença sutil, como se, pela primeira vez, estivesse um pouco menos empenhado em representar e um pouco mais disposto a habitar a própria pele.


Não sabia se teria coragem de chegar ao consultório, de sentar, de falar, de continuar. Não sabia se suportaria o que viria à tona. Mas sabia, com uma certeza silenciosa, que aquele instante na padaria, com a lâmpada queimada e o sonho antigo atravessando a manhã, tinha quebrado a superfície polida da repetição.


Um menino que passara a vida inteira sem querer atrapalhar ninguém tinha, enfim, dado um pequeno passo em direção a si mesmo. E, num lugar muito fundo de sua história, isso já era uma revolução.


Em Rooms by the Sea, (1951) Edward Hopper revela o instante em que a vida rompe a ordem silenciosa do cotidiano. O interior contido é atravessado abruptamente pelo mar, imagem do inconsciente que irrompe sem aviso. Assim como no conto, a pintura não fala de cura, mas do primeiro rasgo na repetição, o momento em que algo começa a atravessar a existência.
Em Rooms by the Sea, (1951) Edward Hopper revela o instante em que a vida rompe a ordem silenciosa do cotidiano. O interior contido é atravessado abruptamente pelo mar, imagem do inconsciente que irrompe sem aviso. Assim como no conto, a pintura não fala de cura, mas do primeiro rasgo na repetição, o momento em que algo começa a atravessar a existência.

Eduardo Villarom Helene

Psicanalista Clínica da Palavra, onde a escuta se transforma em linguagem

 
 
 

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