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Enquanto ainda dá tempo

  • Foto do escritor: villarom
    villarom
  • 5 de nov. de 2025
  • 3 min de leitura

Atualizado: 7 de dez. de 2025

A lucidez possível diante do mundo que desaba


Escrevo isso pra quem, mesmo desacreditado, ainda sente algo vibrar por dentro quando ouve palavras como “sentido”, “verdade” ou “futuro”.

Não escrevo por esperança cega, nem pra semear pânico. Escrevo por dever. Um dever ético e existencial. Kant diria que a dignidade humana consiste em agir conforme aquilo que, se todos fizessem, o mundo seria mais habitável. Já a psicanálise me diz que a angústia, por mais insuportável que pareça, é um sinal de que o sujeito ainda está vivo.


Sim, algo está ruindo. E não é de agora.

Não se trata só de aquecimento global, guerra, robôs, inteligência artificial, fome ou ódio.

O que está ruindo é a ideia de humanidade como algo que sabíamos o que era.

Hoje vivemos anestesiados. A gente consome imagens em velocidade tão violenta que não há tempo de sentir. Estamos dopados de feed, de rage, de distração. Falamos o tempo todo, mas não escutamos ninguém. E quando escutamos, é pra odiar, corrigir ou rir. A palavra deixou de ser ponte e virou arma.


E o que isso revela?

Uma falência do simbólico. Um curto-circuito no modo como o desejo circula.

Freud chamaria isso de retorno do recalcado em forma de sintoma coletivo.

Lacan diria que o gozo tomou o lugar do laço. E Kant? Kant diria: perdemos a autonomia. Nos tornamos heterônomos, guiados por algoritmos, vícios e afetos que nem são nossos.

Não temos tempo pra pensar.


E sem pensamento, não há liberdade.

A IA vai tomar profissões? Talvez.

O colapso hídrico, alimentar, econômico, ambiental, social, pode vir? Já está vindo.

Mas antes de qualquer colapso técnico, vivemos um colapso subjetivo.

A incapacidade de desejar algo que não seja performance ou alívio imediato.

A recusa em dizer: eu sou responsável por aquilo que sustento com minhas escolhas.

Sim, existe uma guerra em curso. Mas não é só entre nações.


É entre o sujeito ético e o ego domesticado pelo algoritmo.

Entre o que em nós deseja e o que em nós apenas reage.

Eu vejo mães com filhos de borracha. Vejo homens que se satisfazem com bonecas de silicone. Vejo jovens incapazes de sustentar um olhar ou um silêncio. Isso não é ficção científica. Isso é a morte do outro como espelho vivo de nós mesmos.


E ainda assim, é nesse abismo que mora uma possibilidade.

Porque o sujeito só emerge quando a falta se reconhece. Quando o vazio não é preenchido com ruído, mas escutado como campo fértil. Freud dizia: o sofrimento neurótico é o preço que pagamos por recusar o sofrimento real. Kant diria: a coragem de pensar, mesmo em desespero, é um dever moral.


Talvez a pergunta não seja “como evitar o colapso”, mas:

Como ser humano enquanto tudo desaba?

Como manter o laço, o cuidado, o gesto ético, quando já não há plateia?

Não espere a bomba pra pensar no abrigo.

Não espere a queda pra aprender a plantar.

Não espere o colapso total pra voltar a escutar quem tá do seu lado.

Você quer fazer algo? Comece assim:

Desconecte do feed. Leia uma página. Regue uma planta. Peça perdão. Escute alguém em silêncio. Reconheça que não sabe. Respire. Pense. Não reaja pense.


Isso não te salva do colapso.

Mas talvez te salve de morrer por dentro antes dele chegar.

E se for pra recomeçar do zero, que seja com quem sabe amar o essencial.

Água. Palavra. Presença. Respeito. Liberdade.

Com quem, como Mujica, entendeu que o necessário é pouco e que o pouco pode ser tudo.


Talvez acabe com o último gesto de indiferença.


Mas enquanto ainda houver alguém disposto a pensar e a amar não acabou.

Então, pensa.

Porque ainda dá tempo


“Subway”, de George Tooker, traduz visualmente o colapso silencioso descrito no texto. As figuras estão juntas, mas radicalmente isoladas, presas a um movimento automático, sem encontro, sem palavra. A cena expressa a perda do laço humano, a vida dominada pela repetição e pela inércia, exatamente como a subjetividade capturada por sistemas, telas e algoritmos. É o retrato de um mundo que ainda funciona por fora, mas já entrou em colapso por dentro.
“Subway”, de George Tooker, traduz visualmente o colapso silencioso descrito no texto. As figuras estão juntas, mas radicalmente isoladas, presas a um movimento automático, sem encontro, sem palavra. A cena expressa a perda do laço humano, a vida dominada pela repetição e pela inércia, exatamente como a subjetividade capturada por sistemas, telas e algoritmos. É o retrato de um mundo que ainda funciona por fora, mas já entrou em colapso por dentro.

Eduardo Villarom Helene

Psicanalista Clínica da Palavra, onde a escuta se transforma em linguagem

 
 
 

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