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Beau Tem Medo: o horror do amor que não liberta

  • Foto do escritor: villarom
    villarom
  • 5 de nov. de 2025
  • 4 min de leitura

“A neurose é o preço que pagamos por amor.”

(parafraseando Freud)


Há filmes que não se assistem. Eles nos invadem.

Beau Tem Medo, de Ari Aster, é um desses mergulhos em que o espectador se perde.

Mais do que um suspense, é uma jornada psíquica, uma experiência em que o medo não é um tema, mas uma estrutura.

O medo de existir. O medo de desejar. O medo de ser amado demais.


Ari Aster constrói um universo inteiramente freudiano.

O filme é o mapa do inconsciente de um homem aprisionado pela culpa e pelo amor.

A cidade, a casa, o sótão, o tribunal, cada cenário é um cômodo de sua mente.

Nada está fora. Tudo acontece dentro.


Beau é o sujeito que não suportou nascer.

Tudo nele é regressão, dependência e culpa.

E o que o aprisiona é o mesmo que o formou: o amor da mãe.


A mãe que ama demais


Freud escreveu em Introdução ao Narcisismo que os pais amam os filhos como o renascimento de seu próprio ideal.

Em Beau Tem Medo, essa ideia se transforma em pesadelo.

Mona Wassermann, a mãe de Beau, o ama como espelho.

Ela não o vê como alguém, mas como parte de si.

Seu afeto é absoluto, mas sufocante.

Seu amor é uma prisão dourada.


Beau vive num campo de amor e culpa.

Ele teme existir fora desse vínculo, como se viver por conta própria fosse um crime.

Sua culpa não vem de um ato, mas do simples fato de querer ser outro.

E é essa confusão entre amor e controle que Ari Aster transforma em terror.


A mãe de Beau não é apenas uma mulher.

É a figura do amor que impede o nascimento.

Ela é a origem e o cárcere.

Diante dela, Beau continua criança.

O adulto que vemos é apenas um corpo habitado pela infância.


O pai ausente e o falo que retorna


No mundo de Beau, o pai é apenas uma lembrança, uma sombra.

E quando a lei do pai não existe, o falo retorna como monstruosidade.

A cena do sótão é a materialização desse retorno.

O pênis gigante e vivo, guardado dentro da casa materna, é o símbolo grotesco do pai que nunca foi simbolizado.


O sótão é o inconsciente, o lugar do reprimido.

Lá está o falo, o poder, a lei, mas sem palavra.

A mãe o mantém guardado, como quem domina o que deveria ser a autoridade paterna.

O pai foi devorado.

E o filho cresce sem referência, preso ao amor que não reconhece limites.


Quando Beau encontra essa figura, encontra o interdito.

É o confronto com o pai, com o poder e com o desejo.

Mas o pai, aqui, já não é símbolo.

É carne. É horror.

O inconsciente perdeu a metáfora e devolveu o real.


Desejo e culpa


Quando Beau reencontra Elaine, o amor de juventude, a fantasia do desejo possível reaparece.

Mas o desejo em Beau é sempre acompanhado pela culpa.

O encontro amoroso termina em morte.

O prazer é seguido pela punição.

Freud explicaria isso como o conflito entre Eros e Tânatos.

O amor e a destruição caminham juntos.

O desejo de Beau é, ao mesmo tempo, desejo de viver e medo de morrer.

A mulher amada é o retorno da cena edípica: o amor proibido, o prazer acompanhado de culpa.

Amar fora do olhar da mãe é trair o amor absoluto.

E toda traição exige castigo.


O analista que não escuta


Nem mesmo o psiquiatra de Beau oferece refúgio.

Com sua fala calma e seu tom técnico, ele simboliza o superego disfarçado de cuidado.

Em vez de escutar, diagnostica.

Em vez de acolher, controla.

Ele conversa com a mãe de Beau pelas costas do paciente.

O consultório torna-se um prolongamento da casa materna.

É o ventre da dependência, travestido de cura.


Freud dizia que o superego nasce da internalização da autoridade parental.

Aqui, ele veste jaleco branco e prescreve remédios.

O analista é a voz da normalidade.

O mesmo olhar moral da mãe, agora legitimado pela medicina.


O julgamento e a sentença


No desfecho, Beau é levado a julgamento.

A cena é de uma beleza cruel.

A mãe está lá, viva, no centro da acusação.

A plateia é muda, mas o olhar dela basta.

Beau não é julgado por um crime, e sim por existir.

O tribunal é o palco do superego freudiano: a consciência que acusa, pune e vigia.


Freud afirmava que o superego é o herdeiro do amor e da culpa.

Em Beau Tem Medo, essa herança é literal.

A mãe é a lei.

O amor é a punição.

A sentença é o retorno ao útero: morrer é voltar para ela.


O medo como herança do amor


Em O Mal-Estar na Civilização, Freud escreveu que pagamos com culpa pelo avanço da consciência.

Ari Aster parece responder: pagamos com medo por ter amado demais.

O medo de Beau é o medo de todos nós.

O medo de decepcionar, de perder o amor, de se tornar real.


O horror do filme não é sobrenatural.

É íntimo, cotidiano, infantil.

É o medo de sair do amor que nos formou.

O medo de existir por conta própria.

Beau teme o olhar da mãe, mas teme ainda mais perdê-lo.


O filme é, no fundo, a metáfora do sujeito que não atravessou o Édipo.

Que vive prisioneiro do amor e nunca conheceu a lei.

A culpa é a herança desse amor que não libera.

E o medo, o sintoma que o mantém vivo.


O terror de Beau Tem Medo não está nos monstros nem nas alucinações.

Está naquilo que Freud mais compreendeu sobre o humano:

que o amor pode ser o disfarce mais eficaz do controle,

e que a liberdade, muitas vezes, assusta mais do que a prisão.


O medo de Beau é o medo de todo sujeito diante da própria liberdade: o terror de existir fora do amor que o formou.


Sobre o autor

Eduardo Villarom Helene é psicanalista e aprendiz de escritor.

Dedica-se ao estudo das relações entre inconsciente, cultura e cinema.

Acredita que o cinema é uma das formas mais puras de o inconsciente continuar falando, mesmo quando o sujeito tenta silenciá-lo.

 
 
 

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