Apostar para existir
- villarom
- 28 de jan.
- 3 min de leitura
Bets, risco e colapso financeiro
Este texto dá continuidade à série sobre economia psíquica na contemporaneidade, acompanhando um deslocamento específico: quando o valor de si, antes sustentado pela imagem e pela visibilidade, já não se mantém apenas pela cena. Algo cede. E, nesse ponto, o dinheiro deixa de sustentar a aparência e passa a operar, de modo mais direto, sobre a angústia.
Se no texto anterior a questão era o custo de aparecer, aqui entramos no território do risco.
Há sujeitos que não se desorganizam apenas aos poucos. Eles atravessam um ponto de ruptura. A imagem já não basta, o reconhecimento já não acalma, o consumo já não sustenta. Surge então uma outra lógica, mais crua, menos mediada pela palavra. Apostar.
As bets, os jogos, o risco financeiro extremo não podem ser compreendidos apenas como imprudência ou ilusão de ganho. Do ponto de vista psíquico, funcionam como dispositivos de excitação. Produzem intensidade, suspendem o tempo, concentram o mundo em um instante. Por alguns segundos, tudo se cala, exceto a possibilidade de ganhar ou perder.
Não se aposta apenas para ganhar dinheiro.
Aposta-se para sentir algo.
Em termos freudianos, esse funcionamento se aproxima da compulsão à repetição, tal como formulada por Sigmund Freud em Além do Princípio do Prazer (1920). O sujeito repete não porque espera um desfecho diferente, mas porque algo insiste, algo não elaborado retorna sob a forma de ato. Ganhar prolonga o circuito. Perder, muitas vezes, o regula. Em ambos os casos, a repetição se mantém.
O dinheiro, aqui, já não é meio de troca nem sustentação de imagem. Ele se torna instrumento de descarga.
Do ponto de vista clínico, chama atenção o quanto a perda financeira não interrompe o movimento. Ao contrário, frequentemente o intensifica. Isso porque o que está em jogo não é o cálculo, mas a necessidade de excitação suficiente para não cair em um estado de vazio, apatia ou colapso.
É nesse ponto que a contribuição de Donald Winnicott se torna decisiva. Para Winnicott, quando o ambiente falha precocemente, o sujeito pode crescer sem uma experiência suficientemente estável de continuidade do ser. Nessas condições, o vazio não é simbólico, é estrutural. E o risco extremo passa a funcionar como tentativa de sentir-se real.
Apostar, usar drogas, gastar de forma descontrolada podem produzir, por instantes, algo próximo de um “estou aqui”. Não porque tragam prazer no sentido clássico, mas porque suspendem, ainda que provisoriamente, a sensação de inexistência.
O risco devolve contorno ao eu.
Na lógica contemporânea, as bets potencializam esse funcionamento. Algoritmos, promessas de ganho rápido, ausência de intervalos, tudo colabora para eliminar a espera e a elaboração. Não há tempo entre o impulso e o ato. A aposta acontece onde antes poderia haver pensamento.
Clinicamente, isso se traduz em narrativas marcadas por urgência. O sujeito diz que precisa recuperar o que perdeu, que está a um passo de virar o jogo, que agora entendeu o sistema. Mas o que se repete não é o erro de cálculo. É a tentativa de manter acesa uma chama mínima de excitação psíquica.
O colapso financeiro, nesses casos, não é acidente. É efeito colateral de uma economia psíquica organizada em torno do excesso.
Mas esse texto não se encerra no risco. Há um outro movimento, menos visível, quase oposto, que responde à mesma angústia de fundo. Se alguns sujeitos apostam tudo para sentir que existem, outros fazem o caminho inverso: retraem, controlam, retêm. Vivem como se qualquer gasto fosse uma ameaça à própria sobrevivência psíquica.
É dessa outra economia, marcada não pelo excesso, mas pela contenção extrema, que trato no próximo texto.
No próximo ensaio, vou tratar de Viver como pobre tendo recursos: avareza, controle e economia psíquica da escassez, acompanhando aqueles para quem gastar não é risco financeiro, mas risco de colapso subjetivo.
Clínica da Palavra Eduardo Villarom Helene Psicanalista Há atos que não buscam ganho, buscam interrupção do vazio.

As fotografias de Todd Hido apresentam paisagens noturnas vistas de dentro do carro, através do vidro molhado, com luzes borradas e sensação de deslocamento contínuo. Não há destino claro, apenas movimento, urgência e suspensão. A imagem não narra um lugar, narra um estado.
Essa estética dialoga diretamente com a lógica da aposta. O sujeito está em trânsito, em excitação, protegido por uma cápsula mínima, enquanto o mundo passa em fragmentos luminosos. Não há elaboração, apenas fluxo. Clinicamente, a imagem traduz o risco como tentativa de manter alguma continuidade do sentir quando o silêncio interno se torna insuportável.




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