André Green: O Pensamento Vivo e o Trabalho do Negativo
- villarom
- 5 de nov. de 2025
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“Pensar é transformar a ausência em presença.” — André Green
Poucos psicanalistas do século XX ocuparam um lugar tão singular e fecundo quanto André Green (1927-2012). Médico, psiquiatra e psicanalista francês, discípulo de Jacques Lacan e posteriormente um de seus críticos mais lúcidos, Green construiu uma obra essencial para compreender a clínica contemporânea, especialmente diante das novas formas de sofrimento psíquico marcadas pelo vazio, pela ausência e pela falha na representação.
Nascido no Cairo, em uma família judia egípcia, Green formou-se em Medicina e especializou-se em Psiquiatria em Paris. Ingressou na Sociedade Psicanalítica de Paris (SPP) na década de 1960, período de grande efervescência teórica e intensas disputas
internas entre as correntes lacanianas, kleinianas e independentes. Embora próximo de Lacan no início de sua trajetória, Green afastou-se posteriormente devido divergências fundamentais sobre a direção da cura e sobre a primazia do simbólico em
detrimento da dimensão afetiva. Sua formação plural — que integrava filosofia, literatura
e psiquiatria — permitiu-lhe desenvolver uma psicanálise de tonalidade própria, centrada no pensamento vivo e na capacidade de representar.
O eixo de sua metapsicologia é o que denominou o trabalho do negativo (Le travail du négatif, 1993). Green retoma Freud, especialmente os textos sobre a negação, o narcisismo e a pulsão de morte, para propor que o psiquismo é movido não apenas por
forças de ligação (Eros), mas também por um trabalho interno de apagamento, destruição e desinvestimento. O negativo não se confunde com a pura ausência ou destruição; é, paradoxalmente, o motor da simbolização: a sombra que possibilita o pensamento.
Quando o negativo falha, emergem as patologias do vazio, a esterilidade psíquica e as depressões sem objeto.
Entre seus conceitos mais impactantes está o da mãe morta, uma das contribuições mais originais da psicanálise contemporânea. Green descreve esse fenômeno como a situação em que a mãe, emocionalmente devastada, torna-se psiquicamente ausente,
deixando a criança em contato com um corpo presente, mas esvaziado de investimento libidinal. Essa experiência funda um luto impossível e pode conduzir a uma identificação com o vazio, origem de certas formas de melancolia, retraimento narcísico e inibição
criativa.
Outro conceito central é o de narcisismo de morte (ou narcisismo negativo), no qual o sujeito não busca a expansão de si, mas a extinção do desejo e o retorno à não existência. Green aprofunda aqui o conceito freudiano de pulsão de morte, aplicando-o
à clínica de pacientes que não sonham, não pensam e não sofrem de maneira visível, mas parecem simplesmente sobreviver.
Com Freud, Green mantém uma relação de continuidade criativa. Não rompe com a teoria freudiana, mas a amplia, transformando a metapsicologia em uma reflexão sobre o que ocorre quando a representação falha e o pensamento não se forma. Se Freud
investigou o inconsciente que fala por meio dos sintomas e dos sonhos, Green interroga o que acontece quando o inconsciente não fala, quando o símbolo não se constitui.
Em relação a Melanie Klein, Green compartilha o interesse pelas posições psíquicas e pela vida pulsional primitiva, mas critica a tendência kleiniana de reduzir o negativo à
inveja e à agressividade. Com Donald Winnicott, há afinidade na ênfase sobre o papel do ambiente e da mãe suficientemente boa como base para a constituição do self. No entanto, Green introduz a dimensão da ausência e da perda do investimento materno,
ultrapassando a ideia winnicottiana de falha ambiental.
De Wilfred Bion, herda preocupação com o pensamento e a transformação de elementos brutos em conteúdos
psíquicos simbolizáveis, mas desloca o foco para o não-pensado, para o vazio onde o
pensamento não chega a se constituir.
O diálogo com Lacan é ao mesmo tempo fecundo e crítico. Green reconhece a
importância do simbólico e da estrutura da linguagem, mas alerta para o risco de uma
psicanálise excessivamente formal, que negligencie o afeto e o corpo. Para ele, o
excesso de lógica pode conduzir a uma psicanálise sem carne, incapaz de acolher a
dimensão viva da experiência emocional.
Se Freud construiu a metapsicologia das pulsões e da representação, Green propôs uma metapsicologia do negativo uma teoria sobre o que não se inscreve, o que não se pensa e o que se apaga antes mesmo de nascer. Ele amplia o campo da clínica para incluir as psicoses brancas, as depressões sem objeto e as falhas de simbolização territórios em que o sujeito não enlouquece, mas tampouco vive plenamente.
Em O Discurso Vivo (1973), Green resume sua visão de modo exemplar: “O que cura é o trabalho do pensamento vivo, aquele que não se contenta em repetir, mas que reinventa o sentido da ausência.” Seu legado é o de uma psicanálise capaz de pensar o
impensável: o silêncio, o vazio e o não representável. Green faz avançar a teoria freudiana ao incluir, no coração da psicanálise, o negativo como força criadora aquilo que permite ao sujeito suportar a ausência e, mesmo assim, continuar pensando, sonhando e vivendo.
Referências Bibliográficas
Green, A. (1973). Le discours vivant. Paris: Presses Universitaires de France.
Green, A. (1983). Narcissisme de vie, narcissisme de mort. Paris: Éditions de Minuit.
Green, A. (1993). Le travail du négatif. Paris: Éditions de Minuit.
Green, A. (1986). La mère morte. Paris: Éditions de Minuit.
Freud, S. (1914). Introdução ao narcisismo. In: Edição Standard Brasileira das Obras
Psicológicas Completas de Sigmund Freud, vol. XIV. Rio de Janeiro: Imago.
Freud, S. (1925). A negação. In: Obras Completas, vol. XIX. Rio de Janeiro: Imago.
Winnicott, D. W. (1958). Natureza humana. Rio de Janeiro: Imago.
Bion, W. R. (1962). Aprender com a experiência. Rio de Janeiro: Imago.
Lacan, J. (1953). Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise. In: Escritos.
Rio de Janeiro: Zahar, 1998.
Eduardo Villarom Helene

Psicanalista e Psicoterapeuta




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