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A Visão Aprimorada da Maturidade (Com Lentes, Mas Sem Venda)

  • Foto do escritor: villarom
    villarom
  • 13 de nov. de 2025
  • 4 min de leitura

Era uma quarta-feira. O cheiro de café (e talvez um tico de angústia sublimada) pairava no ar da reunião on-line, onde nosso clã de psicanalistas que insiste em se encontrar semanalmente para a (sempre necessária) dissecação de casos clínicos, dilemas de manejo e, sejamos honestos, um pouco de fofoca intelectualizada.


Estamos nessa há décadas. Desde os tempos de faculdade, quando éramos todos puro idealismo freudiano e usávamos jeans rasgados (porque éramos cool e profundos, claro).


Eis que, no meio de uma discussão sobre a resistência do Paciente X à interpretação de seu sonho com um abacaxi (sim, um abacaxi), a Débora, sempre observadora, soltou a pérola:


— Gente, vocês notaram? Olhem em volta. Somos oficialmente o Clube da Lupa, todos de óculos.


Silêncio. Olhamos uns para os outros. Cinco pares de olhos. Cinco pares de... óculos. Lentes grossas, finas, azuis, redondas, retangulares, chiques e uma que insiste em escorregar do meu nariz (que resolvo com um inusitado e constante 'empurrãozinho' com o dedo indicador).


Adriana, aquela com a observação cirúrgica, foi quem começou a crise de riso, ajustando seus próprios óculos de armação colorida (que a deixam com um ar eternamente divertido e um pouco professoral).


— Ah, gente! — ela exclamou, com a voz embargada pela gargalhada. — Olhem para nós! Parecemos uma reunião de diretoria de uma fundação geriátrica! Eu lembro quando a nossa maior preocupação visual era se o delineador estava reto!


Ela se inclinou para trás na cadeira, limpando uma lágrima no canto do olho. Adriana riu da idade, mas na verdade estava rindo da cumplicidade que nos permitia ser tão honestos sobre o tempo que passa.


Do outro do computador, estava a Joyce. A caçula do grupo, ainda na casa dos quarenta e poucos, com uma energia que nos fazia sentir um pouco menos cansados só de estar perto. A Joyce, ironicamente, também usava óculos, mas os dela tinham um toque mais fashion e despretensioso.


— Ei, a idade não é o único critério, viu? — defendeu a Joyce, com um sorriso brincalhão, apontando para seus próprios óculos com a ponta da caneta. — Eu só quero ter certeza de que estou lendo o Superego na letra minúscula, mas o meu problema é genético, não existencial!


E assim, enquanto Adriana representava a nossa maturidade bem-humorada, a Joyce era a prova viva de que as lentes não são apenas um símbolo de cronologia, mas sim o instrumento necessário para a clareza, seja qual for a sua década.


As risadas da Adriana ecoaram, e o comentário da Joyce nos lembrou que, no fim, a diferença entre a visão da juventude e a da maturidade não estava na idade da certidão, mas sim na profundidade do olhar que cada um escolheu cultivar.

Rimos. Rimos alto e com aquela familiaridade de quem já viu o outro passar por todas as fases do cabelo e da vida amorosa.


— Pois é, a idade chegou para todos, né? — conclui, ajeitando meus óculos de leitura na ponta do nariz para parecer mais solene.


E ali, entre lapsos e atos falhos (mas dessa vez não de pacientes, e sim da nossa biologia), começamos a matutar sobre essa tal de maturidade. Falamos das pequenas limitações: a coluna que dói, o sono que é mais leve, a dificuldade de ler a bula do antidepressivo sem a ajuda do nosso novo acessório.


Mas foi aí que me veio o insight, digno de uma sessão de análise (e bem mais barato do que uma).


Pensei: Quando éramos jovens, não precisávamos de lentes para enxergar de perto. Nossa visão era 10/10, perfeita para identificar o ônibus que passava ou o cartaz da próxima festa. No entanto, se formos honestos, a nossa visão de mundo era uma coisa... meio túnel.


Lembram-se?


Éramos rápidos na interpretação, mas lentos na paciência. Tínhamos um roteiro na cabeça de como a vida (e a clínica) deveria ser. O mundo era preto no branco. Ou o paciente se enquadrava na teoria, ou ele estava (teoricamente) resistindo demais.


Nós enxergávamos com uma clareza ótima, mas com uma profundidade míope.


Hoje... ah, hoje é diferente. Nossas retinas podem estar um pouco desgastadas, mas o que perdemos na nitidez visual, ganhamos em foco mental.


Colocamos os óculos e, de repente, conseguimos ler não só a letra miúda do contrato, mas também as entrelinhas do silêncio de um paciente. Nossa visão se tornou panorâmica e caleidoscópica.


Os óculos que usamos agora não corrigem apenas uma falha biológica; eles simbolizam a correção de uma falha existencial.


Eles nos forçam a parar, a desacelerar um milissegundo para encontrar o melhor ângulo de leitura. E é nesse pequeno pausa que a complexidade do mundo (e da alma humana) se revela.


Hoje, usando estas lentes, vemos o self em suas nuances infinitas, a transferência em suas reviravoltas inusitadas, e a vida não como uma linha reta, mas como um intrincado mosaico de sim e não, talvez e depende.


Raramente alguém sai da nossa reunião dizendo "O caso é simplesmente isso". Não, agora somos peritos em "O caso é complexo, cheio de desvios e vamos tomar mais um café para pensar melhor".


Saímos da reunião, o luar batendo na armação dos meus óculos. A Sandra tropeçou levemente no tapete (prova de que nem toda a visão melhorada é 100% eficaz). Mas sorrimos.


Podemos precisar de lentes para distinguir a bula do jornal, mas nossa visão do Mundo, essa sim, nunca foi tão clara, tão ampla e tão, ironicamente, desarmada. A gente só precisou de uns quarenta e tantos anos... e um bom par de óculos.


E você, psicanalista ou não, qual é o seu par de lentes preferido? Gostaria de um texto sobre a diferença entre a interpretação do sonho com abacaxi na juventude e na maturidade?


Sou Eduardo Villarom Helene, psicanalista, uso óculos e hoje a medida que os graus das minhas lentes aumentam, minha visão se torna mais aguda.


 
 
 

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