A Tirania da Piscada e os 3,6 Anos Perdidos
- villarom
- 13 de nov. de 2025
- 2 min de leitura
Atualizado: 16 de dez. de 2025
O que a piscada nos ensina sobre o tempo, a perda e a ilusão de controle
Caros leitores e amantes da visão (intermitente), acabo de fazer uma conta aterradora, dessas que a gente só consegue conceber graças à paciência estoica de uma inteligência artificial. A pergunta era inocente: quanto tempo ficamos de olhos fechados por causa da bendita piscada?
A resposta, amigos, é um murro no estômago da nossa percepção de tempo: 3,6 anos. Três anos e meio. É o tempo de uma faculdade, de um relacionamento intenso, ou o período que levei para finalmente aprender a fazer uma boa pizza de fermentação natural. E nós o passamos com as pálpebras em uma micro-greve, em um flash involuntário e constante que, acumulado ao longo de 60 anos, nos rouba quase quatro anos de vida visual.
Que tipo de conspiração biológica é essa? Uma que nos obriga a limpar os olhos justamente quando a vida está mais interessante?
Pense comigo no que perdemos. Não foram momentos longos e previsíveis, como um cochilo no sofá ou a fila do banco. Não. Nós perdemos piscadelas. Fatias de 0,3 segundos, cruciais e irrecuperáveis.
Certamente, o momento exato em que o seu vizinho tropeçou no tapete, soltando a melhor piada da sua vida (que você só pegou o desfecho), aconteceu na sua piscada de 0,3 segundos. O pico da graça virou um fade-out na escuridão.
O Gol da Virada, aquele voo espetacular da bola, a glória pura na vitória do Corinthians (sim, eu vivi isso), foi substituído por uma imagem estática e barulhenta. Você só viu a reprise.
E o Amor à Primeira Vista? Você perdeu o momento clímax do encontro dos olhares, aquela faísca que só dura meio segundo. E o seu cérebro, espertinho, preencheu a lacuna com a imagem de um sanduíche de presunto.
Talvez, caro leitor, esta seja a grande lição de humildade da biologia. A piscada é a prova de que não podemos ter controle total. É a pausa obrigatória, o reset do sistema que nos impede de sermos observadores implacáveis. É a nossa maneira de sermos poetas visuais, forçados a preencher as lacunas.
Da próxima vez que você piscar, pense nisso. Não é só um movimento para lubrificar a córnea. É um ato de rendição. É o universo dizendo: “Relaxa. O que era realmente importante, você já absorveu. E o resto, bem… você pode imaginar.”
E agora, com licença, vou piscar. Preciso de 0,3 segundos de escuridão para ponderar o que estou perdendo agora mesmo. Certamente é algo importante.
Eduardo Villarom Helene é psicanalista e aprendiz de escritor. Se gostou, curta. Se não gostou, dê uma piscada e finja que não viu.





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