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A Noite Sempre Chega: quando a sobrevivência pede a máscara do psicopata

  • Foto do escritor: villarom
    villarom
  • 5 de nov. de 2025
  • 4 min de leitura

Atualizado: 8 de dez. de 2025



Uma leitura psicanalítica do thriller da Netflix com Vanessa Kirby


Este ensaio nasceu da experiência angustiante de assistir A Noite Sempre Chega e de precisar elaborar, com algum distanciamento, o impacto provocado pela protagonista. A princípio, sua frieza poderia levar a uma leitura moralizante, classificando-a simplesmente como “psicopata”. No entanto, esse caminho seria reducionista e pouco fértil.


O exercício aqui proposto é justamente o oposto: suspender o julgamento e tentar compreender o funcionamento psíquico que se manifesta na personagem. Ao olhar pela lente da psicanálise, a dureza e a frieza deixam de ser vistas como marcas de maldade e passam a ser entendidas como mecanismos de defesa diante do desamparo e da ameaça de colapso.


Assim, a análise não pretende etiquetar, mas ampliar a reflexão: mostrar como, em situações extremas, todos podemos recorrer a máscaras que nos protegem da dor e nos permitem continuar. Este ensaio é, portanto, um convite a pensar a personagem e, por consequência, a nós mesmos para além da moralização, reconhecendo que a noite que sempre chega é também a do inconsciente.


Em A Noite Sempre Chega, a corrida desesperada de uma mulher para conseguir 25 mil dólares em uma única noite nos prende pela tensão do enredo, mas também pela estranha frieza com que a protagonista enfrenta cada obstáculo. Interpretada por Vanessa Kirby, ela parece oscilar entre momentos de vulnerabilidade e uma dureza quase psicopática, como se tivesse desligado algo dentro de si para seguir adiante. É justamente nesse ponto que a psicanálise nos oferece uma chave de leitura.


Freud nos lembrava que a vida psíquica é atravessada por uma condição fundante: o desamparo (Hilflosigkeit). Desde o nascimento, somos seres dependentes, expostos à falta, à ameaça de perda do objeto de amor, à impossibilidade de controlar o mundo. Diante desse vazio, cada sujeito desenvolve estratégias defensivas para não sucumbir. A personagem de A Noite Sempre Chega parece encarnar a versão mais radical desse mecanismo: diante da urgência e da ameaça de perder casa, família e futuro, ela investe no psicopático como defesa.


O psicopático, aqui, não deve ser reduzido à caricatura do criminoso sem remorso. Em chave psicanalítica, trata-se de um modo de funcionamento em que o outro deixa de ser reconhecido em sua alteridade e passa a ser tratado como objeto utilitário, peça de um cálculo de sobrevivência. Freud, ao falar da pulsão de morte e da compulsão à repetição, já indicava esse terreno sombrio: em certas condições, o sujeito se entrega a uma frieza automática, como se a vida fosse empurrada por um destino que insiste em se repetir. A protagonista, ao longo da noite, parece ser arrastada exatamente por essa lógica cada escolha perigosa não a liberta, mas a prende ainda mais à engrenagem da repetição.


Se pensarmos com Winnicott, poderíamos dizer que estamos diante de um falso self endurecido. A frieza, a coragem de enfrentar riscos extremos, a capacidade de agir sem se deixar paralisar pelo medo tudo isso pode ser lido como uma carapaça defensiva, uma solução de emergência quando não há ambiente suficientemente bom para sustentar o self verdadeiro. Já Melanie Klein veria nessa dureza uma prisão na posição esquizoparanóide: a incapacidade de integrar amor e ódio, a necessidade de expulsar a fragilidade para fora de si, deixando apenas a máscara do controle e da agressividade.


O efeito para o espectador é inquietante. Não se trata apenas de acompanhar a tensão de uma trama de suspense, mas de ser colocado diante de uma questão desconfortável: até que ponto, em situações extremas, não agiríamos também de modo semelhante? Até que ponto a frieza psicopática da protagonista não revela uma parte nossa, aquela que, diante do colapso iminente, optaria pelo cálculo em vez da empatia?

Assim, A Noite Sempre Chega não é só um thriller angustiante. É também uma parábola sobre o desamparo e as máscaras que lcriamos para sobreviver a ele. A protagonista não é “má” no sentido moralista, mas alguém cuja psique, pressionada pela urgência, precisou desligar seus afetos para não se despedaçar. O psicopático, aqui, aparece como um último recurso do Eu diante da ameaça de dissolução.


E talvez seja esse o ponto mais perturbador do filme: perceber que, sob certas condições, a noite que sempre chega não é apenas a da cidade escura e perigosa, mas a noite interna, aquela em que o inconsciente se impõe, cobrando seu preço. Não importa quanto se lute, quanto se corra, quanto se negue: a noite sempre chega. E quando ela chega, somos obrigados a encarar não apenas os perigos do mundo, mas sobretudo a sombra que carregamos dentro de nós.


Eduardo Villarom Helene

Psicanalista Clínica da Palavra, onde a escuta se transforma em linguagem


PS:

Caberia trazer os personagens da mãe e do irmão para essa reflexão. Eles são importantes para dar um tom mais profundo à personagem principal. Quem sabe em outro momento eu retome esse texto.



O presente ensaio surge a partir da experiência estética e subjetiva proporcionada pelo filme A Noite Sempre Chega (Benjamin Caron, 2024). A narrativa, marcada pela urgência e pela violência de escolhas extremas, provocou no espectador uma vivência de angústia que demandou elaboração. Em especial, a construção da personagem principal suscitou a necessidade de refletir sobre seu funcionamento psíquico sem recorrer a julgamentos morais simplificadores, como a classificação imediata de “psicopata”.

A proposta, portanto, é realizar um exercício de leitura psicanalítica que privilegie a compreensão sobre a moralização. Trata-se de analisar a personagem a partir de conceitos freudianos (desamparo, compulsão à repetição, pulsão de morte) e desenvolvimentos posteriores em autores como Melanie Klein e Donald Winnicott, buscando situar seus modos de agir dentro de uma lógica defensiva e não como expressão de uma essência malévola.

Dessa forma, este ensaio justifica-se enquanto tentativa de traduzir, em linguagem reflexiva e acessível, uma experiência de cinema que coloca em cena não apenas um enredo de suspense, mas também as tensões universais da psique humana diante do colapso e da sobrevivência.



Referências Bibliográficas relevantes para enriquecer sua leitura.

Freud, Sigmund

FREUD, S. Além do princípio do prazer. 1920. Rio de Janeiro: Imago. FREUD, S. Inibições, sintomas e ansiedade. 1926. Rio de Janeiro: Imago. FREUD, S. O mal-estar na civilização. 1930. Rio de Janeiro: Imago.

Winnicott, Donald W.

WINNICOTT, D. W. O ambiente e os processos de maturação. 1965. Porto Alegre: Artmed. WINNICOTT, D. W. O brincar e a realidade. 1971. Rio de Janeiro: Imago. WINNICOTT, D. W. Privação e delinquência. 1956. São Paulo: Martins Fontes.

 
 
 

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