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A Guerra das Palavras: um ensaio psicanalítico sobre a retórica pública e o imaginário do crime

  • Foto do escritor: villarom
    villarom
  • 5 de nov. de 2025
  • 3 min de leitura

Há conflitos que não se travam nas vielas, mas na alma coletiva. Antes do primeiro tiro, existe sempre uma palavra. E, para quem se interessa pela interseção entre sociedade e psicanálise, é impossível ignorar que o Brasil convive com uma batalha silenciosa pelo controle das narrativas que cercam o crime organizado. Nesse terreno simbólico, Estado, mídia e facções disputam não apenas versões, mas o imaginário que sustenta o medo e a sensação de poder.

A fabricação do mito

Do ponto de vista clínico, o crime organizado não se mantém apenas pelo armamento ou pelos territórios ocupados. Sustenta-se, sobretudo, pela construção de uma imagem. As facções compreenderam, talvez de forma intuitiva, que o poder simbólico vale tanto quanto o arsenal. Cultivam a fantasia de uma força invencível, sempre capaz de se recompor, sempre maior do que a vida. É essa imagem hipertrofiada que paralisa comunidades inteiras e oferece aos jovens um ideal de pertencimento que o Estado jamais ofereceu.

No fundo, lidamos com uma mitologia contemporânea. O traficante armado não é apenas um indivíduo. Ele encarna um personagem, um significante de força e onipotência. Não se enfrenta um mito apenas com operação policial. É preciso dissolver a aura que o sustenta.

Quando a palavra se torna provocação

Nesse cenário, algumas falas públicas se convertem em instrumentos estratégicos. Recentemente, uma especialista de segurança pública declarou que “traficantes podem ser abatidos com pedras”. Não se trata apenas de uma frase infeliz ou de um excesso retórico. Em termos psicanalíticos, é uma tentativa de encolher a figura do inimigo.

Ao afirmar que um criminoso poderoso pode ser derrubado com o gesto rudimentar de jogar uma pedra, essa especialista está, consciente ou não, atacando o núcleo narcisista da facção. É como se dissesse: vocês não são gigantes, são frágeis. Essa operação simbólica tenta desmontar o mito da invencibilidade criminosa, esvaziando a fantasia que sustenta o terror.

Mas há um risco intrínseco. A humilhação pública costuma tocar zonas profundamente sensíveis da identidade criminosa. É o tipo de ferida que não raro produz reação violenta. Quem trabalha com clínica conhece essa lógica: quando a onipotência é ameaçada, o contra-ataque costuma vir como defesa desesperada. Nas dinâmicas sociais, essa reação pode aparecer como incêndios a ônibus, execuções ou atentados espetaculares.

A palavra que desmoraliza pode, paradoxalmente, inflamar.

A retórica bélica e o inimigo fantasiado

Se de um lado há o discurso da ridicularização, de outro há o discurso bélico, igualmente perigoso. Termos como “narcoterrorismo” elevam o traficante à categoria de inimigo absoluto. É a construção de um monstro, uma figura desumanizada que autoriza a violência estatal sem limites claros. E, como sempre, o corpo que paga essa conta é o da periferia.

Chamar o criminoso de terrorista produz uma fantasia de guerra total. E guerra total legitima excessos. Aqui, novamente, a linguagem não é rótulo. É autorização simbólica. E tudo o que se autoriza no imaginário cedo ou tarde se manifesta na prática.

A oscilação entre ridicularizar e demonizar revela algo importante: o Estado ainda não sabe o que fazer com sua própria angústia. Reage como um sujeito dividido, incapaz de sustentar uma posição coerente diante da ameaça.

O não dito: a economia do crime

Enquanto a retórica pública oscila entre caricatura e monstruosidade, permanece pouco dito aquilo que verdadeiramente sustenta o crime organizado: sua capacidade econômica.

Fala-se incessantemente do jovem armado, mas raramente se nomeia o contador, o advogado, o empresário que faz circular e crescer os recursos da facção. Demoniza-se o soldado, mas poupa-se o investidor. Não por acaso, quando o Estado finalmente acerta o alvo e promove operações de descapitalização, os resultados são mais sólidos. Afetar patrimônio, rastrear fluxos financeiros, desmontar empresas de fachada: aí, sim, o mito começa a ruir.

Quando o dinheiro seca, a onipotência murcha. E nenhum discurso grandioso substitui a falta de recursos.

A linguagem como sintoma

A forma como falamos sobre o crime é reveladora. Entre a fantasia de que o inimigo é um colosso e a fantasia de que ele pode ser derrubado com uma pedra, oscilamos como quem não sabe ao certo o que teme. Esse movimento pendular é, no fundo, um sintoma. Ele mostra que ainda tentamos organizar, pela palavra, aquilo que nos escapa em realidade.

A saída talvez esteja em abandonar a linguagem inflada. Falar do crime organizado como fenômeno complexo, que envolve capital, redes políticas, inteligência financeira e, sobretudo, a produção de um imaginário específico. A palavra madura é a que se aproxima da verdade, não a que tenta criar ou destruir mitos.

Enquanto tratarmos o crime como caricatura ou como lenda, seguiremos repetindo histórias antigas. E o que se repete, na vida psíquica e na vida social, é sempre aquilo que não foi ainda elaborado.


Eduardo Villarom Helene



 
 
 

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