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“A Dócil”, de Dostoiévski: quando o silêncio diz tudo.

  • Foto do escritor: villarom
    villarom
  • 10 de jul. de 2025
  • 2 min de leitura

Atualizado: 5 de nov. de 2025

Narrativas masculinas, silêncios femininos: o que A Dócil ainda nos diz hoje.

Um pequeno e despretensioso ensaio sobre o conto "A Dócil”, de Dostoiévsk.



Dostoiévski nunca nos deixa sair ilesos. Seus personagens não se contentam em viver eles nos atravessam, nos ferem, nos obrigam a olhar para dentro. Em A Dócil (1876), um conto curto e avassalador, o autor russo nos apresenta uma tragédia doméstica contada de forma inquietante: a história de uma jovem esposa que se mata, lançando-se da janela com um ícone nas mãos, e de um marido que tenta, em vão, entender por quê.

Mas A Dócil não é apenas um drama conjugal. É, sobretudo, um estudo sobre o que acontece quando alguém não é visto, não é escutado, não é reconhecido como sujeito. E é aí que entra a psicanálise.


Como psicanalista, leio esse conto com olhos duplos: o da literatura e o da clínica. E o que salta à vista desde o início é o fato de que a jovem não tem voz. Ela não fala. Tudo o que sabemos dela vem do marido um narrador angustiado, confuso, às vezes comovente, mas profundamente narcisista. Ele fala de si o tempo inteiro. E quando fala dela, fala do impacto que ela causava nele. Ela é uma sombra, um reflexo, um enigma.

Mesmo assim, ou talvez por isso, ela nos toca profundamente.


Dostoiévski tem esse dom raro de escrever o silêncio. A jovem não diz uma palavra, mas nós sentimos sua dor, sua lucidez, sua resistência. Ela entra na vida do marido como quem busca escapar de algo pior a opressão das tias com quem morava , e se casa com um homem frio, controlador, que a vê quase como uma posse moral. Ele quer uma mulher que o admire, que o redima, que prove sua importância. Mas nunca lhe oferece um afeto verdadeiro. Não sabe escutar, não sabe acolher, não sabe se abrir.

Ela tenta. Tenta conversar. Tenta gestos. Tenta silêncio. Tenta devolver um revólver sem disparar. Mas percebe, pouco a pouco, que naquele lugar não há espaço para sua alma. E então, no final, ela se vai.

Morrer, ali, é também uma forma de falar.


Do ponto de vista psicanalítico, o conto nos mostra o que acontece quando não há um ambiente suficientemente bom, como diria Winnicott. A jovem precisava de um espaço onde pudesse existir como ela mesma, e não apenas como projeção dos outros. Mas todos ao seu redor as tias, o marido a tratavam como objeto, como função, como silêncio útil.

E ainda assim, ela não se entregou. Esse é o ponto mais bonito e mais triste do conto. A jovem resistiu. Em silêncio, mas resistiu. Guardou dignidade, ética, fé. O gesto final segurar o ícone antes de morrer é simbólico. Ela não atira. Ela se despede.


Para quem lê com os olhos da psicanálise, o conto também fala sobre a culpa que só aparece quando já é tarde demais. O marido tenta entender, tenta justificar, tenta construir um sentido para o que aconteceu. Mas não percebe que o tempo de escutar já passou.

Como muitos de nós, só enxergou o outro de verdade quando o perdeu.

E talvez seja esse o grande aviso do conto: não espere o silêncio do outro virar ausência para começar a escutar.


Eduardo Villarom Helene








 
 
 

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