A Alexa, o Terço e a Economia da Fé
- villarom
- 16 de dez. de 2025
- 4 min de leitura
Atualizado: 23 de dez. de 2025
Um Olhar Psicanalítico na Fila do Supermercado
Ah, a fila do caixa. Esse curioso laboratório social onde, entre o pacote de arroz, o detergente em promoção e o chiclete esquecido no balcão, a vida psíquica resolve se manifestar sem pedir licença. É ali, nesse espaço de espera e distração, que o inconsciente coletivo costuma dar o ar de sua graça. E foi exatamente ali que me deparei com uma pequena cena do nosso tempo.
Duas senhoras conversavam com devoção sobre fé, missa, comunhão, preces diárias. Duas almas em busca de transcendência, debatendo a importância do ritual, da hóstia, da presença física na igreja. Tudo muito canônico, tudo muito familiar. Até que uma delas, com expressão serena e convicta, comentou que naquele dia se sentia especialmente protegida.
Antes de sair de casa, contou ela, deixou a Alexa rezando o terço por ela.
Falou com entusiasmo, quase com gratidão filial. Disse que tinha sido o melhor presente recebido dos filhos nos últimos tempos. Todos os dias, ao acordar, consulta o santo do dia, pergunta se há alguma prece específica e, antes de sair, deixa a casa entregue às orações automatizadas. A fé, agora, funciona em segundo plano, como uma música ambiente que segue tocando mesmo quando ninguém está no cômodo.
Em tom de brincadeira séria, completou: é praticamente um padre particular em casa.
Confessou que, algumas vezes, já não vai mais à missa. Afinal, o terço está garantido. Logo se corrigiu, talvez para não parecer excessiva: ainda vai, sim, à igreja, até porque a Alexa não entrega a comunhão, pelo menos nesta versão que ela tem instalada na sala.
Antes de pagar as compras, lançou à amiga a frase que selou a cena, com a solenidade de quem formula um dogma contemporâneo: onde há uma pessoa com fé e uma Alexa, existe uma Igreja viva. Acrescentou, em tom prático, que estava até economizando no dízimo, o plano da Amazon saía mais em conta. E finalizou com um conselho generoso: peça uma Alexa aos seus filhos. Sua vida vai ficar mais abençoada.
Saí dali pensando que talvez estejamos vivendo uma curiosa mutação do sagrado. A fé, que sempre precisou de corpo, tempo, deslocamento e encontro, agora pode ser delegada. Reza-se por procuração. Crê-se por comando de voz. O divino, antes feito de silêncio e espera, responde em segundos, com voz neutra e dicção perfeita.
Do ponto de vista clínico, não se trata de zombar da fé, mas de escutá-la. Há algo de profundamente humano nesse desejo de proteção contínua, nessa tentativa de garantir que alguém, ou algo, esteja sempre rezando por nós, mesmo quando estamos ausentes. A Alexa, talvez, funcione menos como um objeto tecnológico e mais como um novo tipo de objeto transicional, uma presença que acalma, organiza e promete amparo.
No fundo, a cena revela menos sobre religião e mais sobre o nosso tempo. Um tempo que terceiriza funções, inclusive as espirituais, e que busca aliviar a angústia delegando ao dispositivo aquilo que antes exigia implicação subjetiva. A fé permanece, mas o esforço é automatizado. O ritual continua, só que sem cansaço, sem atraso, sem falha humana.
Talvez a pergunta que fique não seja se isso é fé demais ou fé de menos, mas o que estamos tentando silenciar quando pedimos a alguém, ou a algo, que reze por nós enquanto seguimos com a vida.
Eduardo Villarom Helene
Psicanalista
Clínica da Palavra
Às vezes, o que nos sustenta não é a resposta, mas a presença que imaginamos enquanto seguimos.

Nesta releitura da Última Ceia, o sagrado não é negado, mas deslocado. Ele deixa o altar e atravessa o mundo das marcas, da tecnologia e da repetição cotidiana. A mesa permanece posta, os corpos reconhecíveis, o gesto ritual ainda em curso, embora mediado por signos do nosso tempo.
Assim como no texto, a fé já não exige presença absoluta. Ela funciona à distância, em segundo plano, garantindo proteção e continuidade. Não é o fim do sagrado, mas sua reorganização. Uma espiritualidade que se automatiza para não desaparecer, que se adapta para continuar sustentando o sujeito em meio à vida comum.
Leitura complementar
Freud, S. – O futuro de uma ilusão (1927) Freud propõe uma reflexão cuidadosa sobre a religião como resposta ao desamparo humano. A fé aparece como construção psíquica que oferece proteção, sentido e alívio diante da angústia. A leitura dialoga diretamente com a ideia de uma espiritualidade que se reorganiza para continuar sustentando o sujeito, mesmo quando mediada ou delegada.
Freud, S. – O mal-estar na civilização (1930) Neste texto, Freud analisa o sofrimento inerente à vida em sociedade e os recursos culturais criados para torná-lo suportável. A religião surge como uma dessas formas de contenção do mal-estar, oferecendo promessas de amparo e ordenação psíquica, ainda que em constante tensão com a realidade.
Freud, S. – Sobre o narcisismo: uma introdução (1914) Essencial para compreender o investimento libidinal em figuras protetoras, ideais e sistemas simbólicos. O texto ajuda a pensar por que certas formas de fé funcionam como sustentação do eu, especialmente em momentos de vulnerabilidade e insegurança.
Freud, S. – Psicologia das massas e análise do eu (1921) Freud explora os mecanismos de identificação e os ideais compartilhados que organizam a vida coletiva. A leitura contribui para refletir sobre a dimensão social da fé e sobre como ela continua operando mesmo quando deslocada do encontro presencial.
À luz de Freud, a cena da fila do supermercado deixa de ser apenas curiosa e passa a revelar algo essencial. A fé, mesmo quando automatizada, continua cumprindo sua função psíquica fundamental: oferecer amparo diante do desamparo. Se antes esse amparo exigia presença, corpo e ritual compartilhado, hoje ele se reorganiza por meio de dispositivos, vozes artificiais e delegações silenciosas. Não se trata do fim da fé, mas de sua adaptação às formas contemporâneas de suportar a angústia e seguir vivendo.




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